Meu Grupo de Psicanálise

Estou terminando meu mandato de presidente da atual Sociedade Brasileira de Psicanálise de Minas Gerais. Foram cinco anos de mandato, pois substitui Mário Lúcio e fui eleito e reeleito. Durante esse longo período vivi muitas coisas, aliás o grupo todo passou por muitas situações difíceis, como doenças de membros, mortes e progressos na direção de se tornar um grupo  autônomo e maduro.

Lembrei-me do ano de 1989 quando me mudei para Belo Horizonte e de todo o sofrimento que uma mudança de cidade nos traz. Começar alguma coisa significa abrir mão de coisas que já estavam prontas, como por exemplo, pertencia a uma sociedade psicanalítica pronta, em uma cidade linda como o Rio, com grandes amigos e vim para uma cidade onde só um colega tinha formação parecida com a minha. Começamos do zero, tipo jogar uma semente na terra sem saber se a mesma iria florescer. Durante longo tempo eu e os colegas vivemos o florescer, o quase morrer, o voltar a dar sinais de vida e assim sucessivamente. Não vou falar sobre isso, quero apenas organizar alguns sentimentos e nunca desistir da vida.

Quando cheguei era jovem, lá se vão 27 anos. Quantas experiências, quantas pessoas que se tornaram queridas e quantas desapareceram de nós. A própria vida se impondo, mas no caso, os candidatos da época e que hoje são o cérebro da SBPMG, eram jovens animadas a começar uma formação, todos com filhos pequenos e que hoje estão exercendo profissões e casando. Tenho a sensação de que todos são meus netos e engraçado que eles também. Ana, filha de Thereza me  chama de avô. Acho ótimo. Marina Botinha, hoje médica, em plantão teve contato com alguém que me conhecia e a forma como falou e que chegou a mim, também me deu a certeza de grande intimidade e parentesco. Não vou nomear as pessoas, pois isso demandaria dias e fugiria demais do objetivo, mas trouxemos (eu e o grupo) muita gente de outras cidades e de outras sociedades que vinham e ainda comparecem para falar e dar palestras. Colegas que se mudaram para BH e se tornaram grandes e eternos amigos, com vínculo afetivo intenso foi um marco importante e renovador.  Tudo foi sendo construído e incorporado no meu mundo interno, essas pessoas foram se tornando também “possessões” no sentido de Winnicott, ou seja, elas existem no mundo exterior, mas são pessoas não muito “separadas” de mim (brincadeira gostosa), quero dizer que fazem parte de uma tipo especial de relação, pois quando aparecem em minha mente, sinto um sentimento intenso de familiaridade que ultrapassa o simples gostar, porque tem também sentimentos de magoas, raivas, gratidão, desapontamentos e tudo mais, que aparecem e somem, não se perpetuam, daí estar além do simples gostar. Essas coisas ocorrem com quem se convive muito e de forma definitiva.

Agora, enquanto faço essas reflexões, me dou conta de que valeu muito a pena, não pelo lugar comum de que trabalhei duro e fui recompensado, nada disso, pois teria trabalhado em qualquer situação, mas sim por essa construção afetiva, compartilhada com colegas que se tornaram, assim como eu, criadores de algo que é vivido como nosso, de todos e cuidado com grande carinho.

Despeço-me do cargo, mas sem a sensação de missão cumprida, vamos continuar, pois entendo que não existe missões cumpridas.Quero deixar claro que por mais mudanças que ocorra na sociedade, que é nossa e sempre será, e com certeza passará por várias diretorias e pessoas, jamais deixarei de considerar as pessoas que estiveram e ainda estão no barco comigo de MEU GRUPO DE PSICANÁLISE.

 

Um comentário em “Meu Grupo de Psicanálise

  1. Sergio,
    Ler seus artigos, crônicas tem me dado imenso prazer. Mobiliza minhas emoções, me fazem viajar no tempo e me dão a sensação de intimidade é identificação que foram se estreitando no nosso convívio, nas nossas trocas.
    Obrigado por me levar a tantas boas viagens emocionais, beijos,
    Marilia.

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