O TEMPO E A VIDA

O TEMPO E A VIDA

A vida têm sempre razão, adoro esses versos da música Sei Lá do Toquinho e Vinicius, ela expressa as coisas como elas são. Uma das coisas sobre as quais a vida está certa é funcionamento do tempo. Conhecemos as pessoas, convivermos com elas, deixam suas marcas, mas o convívio desaparece, até porque a vida cotidiana das grandes cidades é implacável com as amizades. Trabalho incessante, família a ser cuidada, prioridades absolutas que deixam de lado o conviver por afeição, melhor dizendo, o que sempre fica sem ser vivido são as realizações de vontades, refiro-me aqui, aos desejos possíveis.

Fui médico lotado no Hospital das Clínicas da UFMG e nesse período funcionei como “preceptor” da residência em psiquiatria, foi uma época ótima, pois em todas as turmas encontrei pessoas diferenciadas, mais do que alunos, pois já eram médicos, tornaram-se amigos jovens e que me renovavam a certeza de que viver vale a pena. Aprendi muito com eles e sem falsa modéstia, percebo que ensinei também. Um desses residentes, com quem tive um convívio intenso, pois almoçávamos juntos quase todos os dias, era um jovem médico assertivo, tinha opiniões muito claras das coisas e do que queria. Quando atacavam, “gozando”, a psiquiatria, sua resposta era pronta e genial. Dizia que o psiquiatra era o mais completo dos médicos, porque sabe o que outros sabem (tinha exercido a clínica médica) e os outros colegas não tem a menor ideia da mente e de seus mecanismos. Falava muito de um livro que estava escrevendo, percebi que ele gastava muito mais tempo no livro do que com os textos, mas como sempre sabia das coisas, passei a achar que estudava também. Novamente cito Sei lá do Vinicius, pois a vida tem sempre razão.

A residência chegou ao fim, e poucas vezes estive com ele, seu nome é José Mauro Barbosa Reis. Sua namorada era uma garota de quem eu gostava muito, delicada, inteligente e participativa, a Letícia. Tinha notícias vagas de Zé Mauro, mas todas as vezes que me lembrava dele, tinha uma sensação boa, pelas conversas e pela implicância com meus cigarros, o que prova que as pessoas precisam de ter defeitos para que possamos acreditar em suas qualidades.

Olhando o facebook, vejo o nome dele em “pessoas que talvez você conheça”. Solicitei amizade que foi aceitou e começamos a conversar, perguntei pelo livro e ele me respondeu que só conseguira publica-lo como ebook, mandou-me a referência e logo consegui adquiri-lo na Amazon. Aí, a grata surpresa. Um livro muito bom, escrito com maestria e de uma forma verdadeiramente literária. Arte é forma, todos sabem disso, mas quando o conteúdo é bom, fica melhor ainda. Psiquiatra jovem, mas sem a imbecilização do Orthos aplicado à psiquiatria, não transforma o livro em explicações psíquicas de seus personagens, que falam e expressam seus sentimentos de forma verdadeira. Suas angústias e dificuldades são mostradas ao vivo e a cores. Não consegui parar de ler. O livro se chama Internato Rural, que para quem não sabe, às faculdades mineiras de medicina tem um período obrigatório no interior, onde os estudantes praticam a medicina brasileira e vivem nas pequenas comunidades. Zé Mauro descreve esse internato no Serro, cidade histórica e famosa de Minas Gerais. Além de uma crônica social perfeita da vida interiorana, o mundo interno de Manuel é mostrado sem apelações e a sexualidade descrita em linguagem quase machadiana. Muito bom mesmo, pois não precisava escrever sobre o livro se não tivesse sentido o que estou falando, repito que não faço concessões quando se trata de arte. Meu amigo jovem foi humilde, pois o título do livro merecia ser outro, porque ultrapassa em muito o Internato Rural. Trata-se da existência das pessoas, onde o pano de fundo foi o Internato Rural, mostrado pelo autor como uma chance de ruptura com a vida infanto juvenil dos acadêmicos de medicina, de um modo geral rapazes prodígios e convencidos.

O que mais me chamou atenção é que de uma certa forma acompanhei temporalmente a escrita do livro, mesmo ele nada dizendo sobre o mesmo e percebi , lendo o livro, a dimensão da coragem dos que executam. Escrever um livro desses não é fácil, exige tudo que as pessoas sabem do mundo e de si mesmas. Lembrei-me do que Freud mostra com clareza sobre os artistas, como a criação é uma fonte de resgates pessoais, e de aprendizado. Quem consegue descrever as pessoas como José Mauro fez, estudou mais do que eu, que já li muito.

Agora tenho dois amigos escritores, não importa se a mídia os reconhece ou reconhecerá, que são dois craques. O outro é o Gustavo Felipe Monteiro de Castro com seus livros Branco de Ubu, Culpa e Soberba. Sinto-me importante por isso.

Concluindo: a vida tem sempre razão, afastamos e nos reencontramos com pessoas e de um modo geral de forma muito alegre.

2 COMENTÁRIOS SOBRE “O TEMPO E A VIDA”

  1. CARLOS M. BARBOSA.