Grupo Existir

Em torno de mais ou menos 15 anos atrás criei um grupo nos moldes do Grupo Mineiro de Winnicott, já inspirado pelo trabalho de José Outeiral e Sueli Hissada. O grupo foi denominado por mim de Grupo Existir, para enfatizar a busca fundamental da psicanálise winnicottiana que é o existir de forma verdadeira e autêntica. O grupo teve alguns encontros exitosos, mas por motivos pessoais foi interrompido, talvez por ter priorizado a criação do que hoje é a Sociedade Brasileira de Psicanálise de Minas Gerais. Encontrei, dentro de um livro o qual não pegava desde o grupo existir, o texto que escrevi na ocasião para apresentar o grupo e vou transcreve-lo e pedir licença aos colegas para acrescentar o Existir no nome do Grupo Mineiro de Winnicott.

O texto é o seguinte: O grupo existir visa o estudo da psicanálise e do ser humano em uma perspectiva winnicottiana, mas não somente. O objetivo é a reunião de pessoas interessadas no ser humano em todas as suas vertentes, ou seja, tudo que seja humano pode ser discutido e pensado no grupo, pois está ligado ao existir. 

Dos psicanalistas atuais Donald Woods Winnicott foi sem dúvida o que mais se dedicou a aliviar o sofrimento humano e se manteve explicitamente na linha de tratar a pessoa, ou seja, se preocupava mais com o paciente do que com a psicanálise em si. Suas contribuições e descobertas são inquestionáveis e na busca de atender e entender as necessidades de seus pacientes descobriu e descreveu aspectos fundamentais do desenvolvimento da mente humana e nos legou uma obra vultuosa e eterna. Achava que o ambiente primário, melhor dizendo, a mãe era determinante da capacidade do bebê se desenvolver e usar seus potenciais autênticos, ou seja, o desabrochar do verdadeiro é função de um ambiente (mãe) que permite que seu filho seja ele mesmo. Desse princípio básico deriva todas as  suas teorias, todas próximas da experiência humana. Ao contrário de outros psicanalistas de nosso tempo, valorizava a pessoa. Disse várias vezes que seu compromisso era com ele mesmo e com seus pacientes e se os mesmos precisavam de algo que não fosse psicanálise, ele dava esse algo, mas afirmava sempre que para dar esse algo precisava ser psicanalista. Apesar de sua ousadia, inclusive em termos de setting, o qual trabalhou exaustivamente, criando o conceito de manejo (handling), que vem a ser uma forma de sustentação (holding) para pacientes para os quais a palavra ainda não faz sentido, foi por duas vezes presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise e um dos analistas mais respeitados de seu tempo, inclusive por aqueles que não concordavam com suas idéias. 

Foi inovador, pois acreditava em profilaxia, e para isso nunca se furtou de fazer programas no rádio dirigido aos pais e tinha uma predileção em tentar ensinar e esclarecer outros profissionais, tais como assistentes sociais, enfermeiros e todos aqueles que lidavam com crianças. Tem uma trabalho importante sobre a Tendência Antisocial o que vem de seu contato com crianças abandonadas por motivos de guerra. Sua obra é inesgotável, mas sem sistematização, pois era avesso e combatia as escolas psicanalíticas, achando que sempre que ninguém poderia ser como ele e que cada um deveria descobrir sua forma autêntica de ser analista. Escreveu várias vezes sobre a falácia das análises estereotipadas, que servem principalmente à perpetuação do falso, fazendo com que o analisando se adapte ao saber do analista e assim repetindo mecanismos arcaicos, semelhantes aos da mãe que não atendeu às necessidades de seu bebê, ao contrário, exigiu que o bebê se moldasse às suas expectativas (da mãe). Análises assim conduzidas, assim como essas mães, acabam com a chance do gesto espontâneo. 

Valorizou o brincar como essencial e como prova da existência do bebê vivo. Criou assim o conceito de objeto transicional, o espaço transicional ou da ilusão, base e alimentador eterno da capacidade simbólica do ser humano, inclusive determinante da capacidade de uma vida criativa para cada um de nós. 

Veio da pediatria e chegou a ter um arquivo de sessenta mil crianças e mães atendidas. Era pessoa de trato afável, sem no entanto fazer concessões. Relatos de análises, escritos por analisandos e não por ele mesmo, são emocionantes e comoventes, principalmente pela forma e preocupação com que lidava com os aspectos mais regredidos e profundos do homem.

Sua grande preocupação foi com o SER, achava que os conflitos vinham depois e a grande questão é o sentimento de EXISTIR. 

Creio que no tempos atuais, onde o simulacro entra no lugar do símbolo, onde o desamparo aparece cada vez mais nítido, com a falta de esperança e na busca de substitutivos para a existência, nada mais adequado do que Winnicott, que achava que viver vale a pena, desde que tenhamos a sensação e convicção que de fato somos. A autenticidade, a vivência de gostar de ser a gente mesmo, apesar de todos os conflitos e dificuldades, a certeza de não ser falso e de que posso amar sem medo e ser amado sem deixar de ser eu mesmo, nos leva a considerar Winnicott uma referência para o resgate da poesia de cada um de nós

O Grupo Existir pretende ser aberto a todas as ideias, tendo como carro chefe o pensamento de Winnicott, sem no entanto ferir ou agredir o que ele mais prezava, que era a liberdade de pensamento. Tentaremos não ser escolásticos e nem pregadores “religiosos”. Podemos vir a estudar tudo e não faremos restrições a qualquer autor, mesmo que seja pra cotejá-lo com nossas ideias. Evitaremos ao máximo os preconceitos, que por definição é não gostar por princípio e sem qualquer conhecimento, e tentaremos, através das ideias winnicottianas, trabalhar e aprimorar nossas clínicas. 

O Grupo Existir se reunirá mensalmente, um sábado por mês, de oito às doze horas. No início estudaremos os trabalhos principais de Winnicott. Sugiro que sejam lidos no primeiro tempo do encontro e debatidos no segundo. Não estamos preocupados com conhecimento prévio e contará com analistas experientes e com jovens interessados  em atender de uma maneira mais humana e ampliar sua visão de mundo.

Espero que sejamos felizes nessa aventura, até no sentido de que, de fato, nos tornemos um grupo cuja a matriz seja a capacidade de reparação e de amar. 

Sérgio Kehdy

Esse foi o texto, como podem ver, com funcionamento idêntico ao Grupo Mineiro de Winnicott, então sugiro que nosso Grupo Mineiro de Winnicott passe a se chamar:

GRUPO MINEIRO DE WINNICOTT OU GRUPO EXISTIR.