Aos queridos amigos Sueli Hissada, Antonio Jacinto, Maria Cristina Uche. Verdadeiros winnicottianos e por isso aprendem e não vivem lutando contra nada (comparando).
Uma das coisas que me intrigam são as comparações. Hoje ouvindo música disse a minha mulher que Billy Holiday era minha predileta e em seguida coloquei, para ela, a mesma música com a Ella. Comentei então que a voz de Ella é fantástica e que era quase inacreditável a beleza da música e percebi que podia amar Ella sem qualquer prejuízo para Billy e que seria possível adorar as duas. Fui levando o raciocínio para frente e me deparei com os colegas de psicanálise que não conseguem pensar nas coisas em si mesmas. No caso lembrei-me de um colega que se encantou com um autor e resolveu ensiná-lo. Exaltava-o como uma “história única”, mas o pior é que para isso usava os erros de todos os outros. Insisto sempre que o estudo tem de ser sobre o que estamos lendo para criarmos nossas opiniões específicas sobre o tema estudado.
O autor em causa era Kohut, com suas teorias sobre o self e as configurações narcísicas. Acredito piamente que é um dos pilares da vida psíquica. As representações, assim como o grau de integração do self vão determinar as necessidades psíquicas por toda a vida. A grande coincidência com Winnicott é que tudo vai depender das respostas do self-objeto. Uma mãe responsiva o suficiente, vai fazer o bebê acreditar que ele é bonito e detentor de todas as qualidades. Para o bebê não sucumbir à perda do Nirvana ao nascer (narcisismo primário) duas configurações narcisicas primitivas aparecem e todas as nossas buscas de objeto serão fruto do bom bom desenvolvimento dessas configurações. São elas o self grandioso, quando o bebê precisa se sentir o rei e a mãe suficientemente boa passa isso sem qualquer percepção do fato, “que bebê mais lindo, é um poema e etc” dito de forma verdadeira e empática proporcionará alimento para a manutenção do sentimento de grandiosidade. Significa ter dentro de si o ser valorizado, bonito e capaz de atrair pessoas, o que nem sempre será confirmado pela realidade, mas a dose de crença na força desses valores não será abalada a ponto de aparecer o sentimento de vazio e de menos valia. Kohut dizia que apesar de um bom desenvolvimento, da crença suficiente em si mesmo, o ser humano sempre precisará de elogios e de reforços em sua grandiosidade . A outra configuração é a imago parental idealizada, que é a necessidade psíquica do bebê de se fundir com um self objeto forte e protetor e assim se sente com a existência garantida. Durante toda a existência o homem lança mão dessa configuração, quem nunca se ligou a alguém importante e teve com isso a vivência de ser mais importante por esse fato. Quando não houve evolução a falta de uma figura idealizada é vivida como mortal. As pessoas frágeis em seus desenvolvimentos narcísicos são dependentes de algum outro que é buscado incessantemente para fazer o papel de um self objeto idealizado. Defendo que em todas as relações satisfatórias, encontraremos sempre a admiração e um certo grau de idealização saudáveis. Torna-se patológico quando os outros passam a ser uma necessidade como o ar que se respira e o sangue que circula. Nessas circunstâncias vemos uma total submissão ao self-objeto. O grande exemplo é o masoquismo, onde se aguenta todas as provações e humilhações pelo medo de desintegração do self não coeso por necessidades exageradas de reforços narcísicos todo o tempo. Como se a bateria nunca se carregasse. Exemplo simples, um atraso é suficiente para desencadear as fantasias de abandono. Kohut depois chamou de alter ego, que é a relação com um outro horizontal, que faz o papel de self-objeto nas relações normais que citei acima.
Winnicott também e de forma magistral chegou a algumas conclusões estruturalmente semelhantes a Kohut. Digo isso, porque os resultados são parecidos, mas as teorias que elaborou tem uma coloração diferente. Não fala em narcisismo. Realça e leva às últimas consequências o desenvolvimento emocional primitivo. Parte de uma dependência absoluta até, ao rumo à independência, tudo dependendo dos cuidados e do olhar do ambiente (mãe) que tem de ser suficiente bom. É isso que vai formar o núcleo colorido do self e vai dar ao ser humano a sensação de que apesar dos pesares a vida vale a pena. Esse colorido faz parte do mundo interno, foi colocado dentro porque os cuidados afetivos e empáticos do ambiente (mãe) assim o fizeram e aos poucos se pode abrir mão do objeto fornecedor concreto por algum tempo, até receber mais holding suficiente dos objetos de escolha e convenientes. Vai ser assim a vida toda. E isso vai implicar a capacidade da ilusão, a vida criativa, que a meu ver é o curtir sem temor as coisas que são do dia a dia e valoriza-las. É o não brigar contra alteridade, que existe porque é diferente de mim e não para agredir ou ofender. Chamou isso da capacidade de usar o objeto. Tudo isso arranjado permite o tolerar ficar só sem desamparo. Criou então o conceito sobre a capacidade de ficar só, mas realçou que preciso do outro para ficar só tranquilo. A obra de Winnicott é imensa e muito mais lida do que a de Kohut.
Vejam as semelhanças entre os resultados: o estar só sem ameaças internas, significa self-objeto internalizado. O colorido do self e o sentimento de que a vida vale a pena é fruto das transformações do narcisismo quando tudo corre bem, ou seja, a capacidade de humor, a autoestima, a empatia com outro, os necessitados de reforços afetivos em grande intensidade, jamais conseguirão ser empáticos. Por fim a capacidade de uso do objeto, ou seja, o crescimento do outro não se transformar em fonte de sofrimentos e nem ser qualquer referencia ao que tenho e sou, é muito semelhante à transformação que Kohut chamou de sabedoria. Ser sábio é ser você mesmo. Aqui não posso deixar de pensar na semelhança com a elaboração da inveja kleiniana, mas trabalhada não como a maldade que o homem carrega dentro de si, como um condenado, mas sim como fruto daquilo que realmente não teve.
Kohut e Winnicott viveram a mesma época e não falam um do outro. Tenho a impressão de que não fazem citações mutuas. Eram pessoas completamente diferentes. Kohut era clássico, um profundo conhecedor e professor de metapsicologia freudiana, coisa que Winnicott deixava de lado, mas imagino que a ruptura kohutiana foi maior exatamente por isso. Demorou mais a se mostrar e a ter coragem de romper com o estabelecido pela sociedades oficiais de psicanálise e foi repudiado por amigos íntimos por isso. Chegou a questionar o complexo de édipo tal qual Freud descreveu, dizendo que isso acontecia quando o self-objeto não funcionou bem. Pagou muito caro, enquanto Winnicott nunca se preocupou em contrapor explicitamente, no que fez muito bem.
Só para ser mais claro, uma pessoa com falhas narcísicas está sempre em pânico, porque o objeto de amor passa ser essencial, pois atende às necessidades arcaicas que ameaçam a sobrevivência. A falta de crença faz com que todo o valor que seria meu, venha de um self-objeto criado e variável. Pensando em Winnicott, a falta de um self integrado e livre faz com que a ameaça seja catastrófica, a ameaça do que ele chamou de medo do colapso, que já foi vivido pelo bebê, quando o mesmo holding procurado não aconteceu.
No meu entender a forma de atender de ambos resgata o que winnicott chamou de manejo e kohut tentando teorizar de forma mais absoluta coloca como uma necessidade de reinternalizar o objeto que não existiu, mas ambos se baseiam nas respostas empáticas do analista às demandas arcaicas e as vezes atuadas do analista. Importante realçar é que ambos acreditam que o ser humano precisa de respostas empáticas durante toda sua vida, nunca poderá ter a autonomia psíquica que alguns psicanalistas de renome sugeriam, precisamos dos outros, o princípio do prazer não pode ser absoluto, temos de fazer concessões para conviver. Essa mudança de visão alterou completamente o foco da psicanálise atual, fazendo-a apenas mais humana e muito mais próxima dos pobres mortais.
Sempre me recusei a comparar os dois, talvez seja a primeira vez que faço isso. Criei um mistura dentro de mim, como se misturam damascos e figos secos, duas coisas as quais adoro e nunca as comparo, fora as outras influências que não estão em questão aqui.
A única coisa que precisa ser comparada sempre é o Atlético Mineiro com o Cruzeiro. O Atlético é de uma superioridade narcísica impressionante. Quando esteve na segunda divisão a torcida se comportava como se o time estivesse disputando o primeiro lugar do campeonato brasileiro. A certeza da grandiosidade permitia isso, mesmo sem os resultados externos favoráveis. Não são os companheiros que ditam nosso colorido interno. Eles apenas ajudam e corroboram.
Nova Lima, 07 de janeiro de 2017.
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