Sou de uma época na qual os homens não faziam serviços domésticos. Imaginem a década de 50 (1950), em uma cidade do interior e em uma casa de comerciante abonado. Mamãe cozinhava bem, mas no dia a dia, tínhamos cozinheira, arrumadeiras (mais de uma), lavadeira e passadeira, além de alguns funcionários não fixos, que apareciam quando o movimento da casa aumentava ou estávamos em férias. Então, fui criado assim e nunca me preocupei com arrumação de casa, comida, lavação de louça ou qualquer outra atividade doméstica. Depois que casei, tínhamos empregadas domésticas, mas já com outras tarefas, ou seja, não eram mais “pau para toda obra”, as funções eram muito especificadas. Festas ou jantares especiais não faziam parte da combinação, e quando isso acontecia, minha esposa e dona da casa tinha que se virar para arrumar a cozinha e deixar tudo certo. Nessas ocasiões eu a ajudava e secava a louça, brincava que secar louça não era algo tão simples e requeria um saber para transformar o simples secar em polimento. Nunca cozinhei e ainda não tenho ideia de como faze-lo. Tudo correu assim, na paz completa, até a notícia terrível do dia 18 de março de 2020, quando tivemos a confirmação da pandemia, do grande perigo e ameaça às nossas vidas, visto estarmos no grupo de risco (idade e algumas comorbidades). Moramos em uma casa grande e temos duas funcionárias. A primeira medida foi não ir mais ao consultório, a segunda e simultânea foi dispensar as funcionárias do trabalho, porque moram longe e tomam duas conduções por dia, pois além dos riscos para elas, poderiam nos trazer o vírus. Consequência, ficamos eu e minha mulher, que também resolveu não comprar comida pronta e passou a cozinhar no diário, coisa que não fazia mais. A vida ficou complicada, pois além de cozinhar, fazia todo o serviço da casa, como limpar, cuidar da roupa e de tudo mais relacionado. Enfrentamos a dura realidade, pensamos e cumprimos o que todos deveriam ter feito, isolamento social e a consciência de que teríamos de conviver com uma mudança profunda em nossas vidas. Tínhamos medo de ir ao supermercado, à farmácia e ao hortifruti, coisas essenciais para pessoas de nossa idade. Não podíamos contar com nossos filhos para as necessidades diárias, porque não estavam por perto. Um casal vizinho, jovens maravilhosos, passaram a fazer nossas compras essenciais e nos preocupávamos de pedir só o básico do básico, pois não queríamos abusar. A coisa foi se tornando rotina, as perdas assimiladas e resolvemos que as compras faríamos com todos os cuidados possíveis. Resolvi a participar das tarefas de casa, encarreguei-me de lavar a louça usada no lanche noturno. A primeira conclusão foi de que eu era absolutamente capaz de realizar essa tarefa, segundo comecei a me sentir útil e a me achar o máximo por concluir essa missão. Uma das saídas psíquicas que usei e abusei foi o dar “ouvidos” às minhas fantasias e devaneios. Achei que uma das saídas seria usar minhas memórias e a usar tudo que eu podia para não perder minha subjetividade e nem a crença de que reencontrarei as pessoas. Uma das elaborações que achei engraçada foi a interpretação que fiz do ato de lavar louças. Primeiro, passei a dizer que lavar louças é lúdico, ou seja, me dava satisfação, sentia-me importante e auto-suficiente, e com alegria. Tive, em função disso, um verdadeiro insight, dei-me conta que eu lavava a louça e sempre pensava de como é bom reparar as coisas. Usamos a louça, temos o prazer de comer e beber e depois reparamos e deixamos tudo limpo e arrumado. Passei a fazer uso dessa percepção para vários aspectos da vida. Lavar louça é um ato de reparação, o recompor aquilo que usamos. Falo sobre o assunto e as pessoas acham graça e não conseguem levar a sério, mas cada vez levo isso mais longe e coloco também na questão da cidadania, pois temos que ser responsáveis por nossas necessidades. E assim, a vida continua, e, talvez seja uma das lições importantes, cada um ter de cuidar de suas coisas pessoais, não ter mais empregados para as coisas elementares, ou seja, cuidar de si mesmo.
Nova Lima, 28 de dezembro de 2020.
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