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Solidão na Velhice [1]
Sérgio Kehdy[2]
Tudo aquilo que poderia ter sido e que não foi. Com esse verso de Bandeira eu começo minhas reflexões sobre a velhice, o envelhecimento e a solidão.
O verso de Bandeira traz a essência do envelhecimento, ou seja, a capacidade de lidar com a frustração. Eu defino a velhice como o momento da vida quando se tem de lidar com os desejos e fantasias que não foram e nem serão realizados.
É a percepção inexorável de que os milhares de planos e intenções não acontecerão, ficarão apenas na vontade. O envelhecimento saudável é aquele no qual apesar disso, consegue-se ter alguma satisfação e alegria.
Isso vem de uma das principais descobertas freudianas quando define o inconsciente, ou seja, o inconsciente é atemporal. O tempo cronológico não tem importância. A maior prova disso são os sonhos, todos nós sonhamos com coisas passadas como se fossem presentes e isso é incrível. Algumas descobertas recentes da neurociência mostram que as memórias não são armazenadas e sim reativadas, significando que se lembra sempre de formas diferentes e sempre influenciada pelo momento que se está vivendo. Então, um resto diurno, desencadeará uma memória da qual não temos conhecimento e essa determinará o conteúdo aparente do nosso sonho, baseado também nos nossos desejos inconscientes que estão e estarão sempre presentes.
Então, tudo aquilo que deveria ter sido e que não foi aparece como um desejo e uma possibilidade que não é mais possível. Essa é a questão principal da velhice lúcida. Sempre existe, como em todas as fases da vida alguma coisa que não foi, a falta está presente sempre e determina as insatisfações humanas.
No velho, as insatisfações estão presentes de uma forma mais acentuada, exatamente pela certeza de que continuarão insatisfações, pelo fato de não ser mais possível realiza-las. Claro, que as pessoas não são iguais, algumas lidam bem com a frustração, não se sentem menos e conseguem aproveitar o que construíram, mas de maneira geral esse é o mecanismo da frustração no velho, ou seja, não consegue mais manter a ilusão de que muitas coisas ainda serão realizadas, mas a capacidade de desejar permanece viva. Temos histórias lindas sobre isso e a depressão no idoso, a meu ver está nessa incapacidade de desejar e de manter a ilusão.
Partindo então dessa premissa, vejo a velhice como um período meio trágico, usando o conceito de trágico como o inexorável e sem possibilidade de ser alterado. Temos que enfrentar a situação, quer se queira ou não. O segredo aqui é não permitir que “tudo aquilo que não foi esconda o que se é.” Na minha opinião essa é uma das premissas da psicoterapia de idosos.
Fiz essa introdução para poder dizer logo a essência do meu pensamento sobre a velhice. Vou agora começar o “passeio”, e levo muito em conta o fato de que, de todos as fases da vida, a velhice é a mais passível de sofrimento em função das diferenças sociais. Nos velhos ricos, com dinheiro e poder, o sentimento de menos valia será bem menor, apesar de não significar que não exista, mas na questão da realidade ele é bem tratado, mais respeitado e menos aviltado pelo fato de ser velho. Seus herdeiros os tratam com carinho e reverência, principalmente quando ainda existe algum poder decisório no velho. As rabugices e implicâncias são toleradas e aceitas. Os cuidados são prestados de forma efetiva e até afetivas por parte dos familiares e médicos. Já o velho pobre e o de classe média, atualmente no Brasil dependente de seguro saúde, não podem sentir o mesmo. Os pobres são vistos como velhos mesmo, a característica apontada por Simone de Beauvoir, os velhos vistos como inúteis, sem sua força de trabalho e com exíguas aposentadorias são os verdadeiros esquecidos. Esses velhos são humilhados em filas intermináveis de espera, tanto para receber sua “esmola” quanto para eventuais atendimentos.
“Na descrição da velhice, quando se abandona sua exterioridade—seu corpo—e se busca sua interioridade, o que se encontra de mais forte é o sentimento de solidão.” (Barreto, 1992). Para muitos velhos, pode não ser penoso, pode se transformar em um encontro consigo mesmos, mas “o sentimento de solidão ocorre quando se procura companhia e não se acha; quando as palavras necessitam de ouvido para se tornarem comunicação, e permanecem ruminação; quando a dor, a saudade, a mágoa tornam-se muito pesadas por falta de um ombro amigo onde derramar lágrimas; quando o alegre e o pitoresco são percebidos ou lembrados, mas não se atualizam em um rir junto; quando já não se conta inteiramente com alguém e em ninguém se consegue confiar. Na velhice, a solidão pesa. Não é apenas um sentimento, é um estado, uma maneira de ser—a solitária maneira de ‘ser velho’ em nossa sociedade.”
Temos então a solidão como uma marca humana, ter desenvolvido a capacidade para estar só permite suportar o ficar sozinho, mas afirmo que isso não resolve o sentimento de solidão do velho. Vou levar em conta nessa apresentação apenas o velho normal, dentro dos padrões de nossa cultura, ou seja, o velho não abandonado por seus familiares, que tem recursos próprios para arcar com suas despesas pessoais, que não conhece de forma intensa a solidão objetiva, mas que tem de enfrentar as perdas próprias da velhice e lidar com um futuro sempre duvidoso.
Uma das questões que determinam o sentimento de solidão é a diminuição da importância, os objetos introjetadas e asseguradores de que se tem valor, de que se é amado incondicionalmente e a convicção sobre si mesmo deixam de funcionar, os não convites passam a funcionar como muito ameaçadores e até persecutórios, falta aqui o espelhamento semelhante e que reforça o olhar da mãe no sentido de Winnicott. Colaboram com isso, as perdas reais, como a morte de amigos, a viuvez, a aposentadoria e o percepção de que não decide mais sobre si mesmo. Citar aqui Moud Manoni.
Em resumo, o velho sente-se só, porque perde a importância, deixa de ser o chefe, e isso determina uma sensação de abandono.
Uma dos espelhamentos fundamentais e dos quais todos necessitam para o todo e sempre é o convívio com nossos contemporâneos, pessoas que compartilharam suas histórias e estórias, com as quais pode-se resgatar suas memórias e que garantem o “abastecimento” da capacidade de estar só, que sempre vai ser necessário para viver e ou sobreviver. A vivência de ser diferente, sozinho, tolerado apenas e não querido ou desejado realmente pode desencadear o sentimento de solidão incomodo, não relaxante e doloroso.
Vou terminar, contando um episódio vivido por mim, que me impressionou muito, o qual estou chamando de: “o último libanês”.
Há muitos anos atrás, talvez há uns trinta anos, quando eu era um médico ainda com grande esperança sobre tudo e todos, passava as férias na casa de minha mãe no interior mineiro. Sou descendente de libaneses e na minha cidade havia uma colônia que tinha vida própria. Os velhos eram amigos, conviviam e as famílias se conheciam bastante. Minha casa era aberta, de sorte que tive o privilégio de ter com os amigos de meu pai alguma intimidade.
Uma noite, com meus dois filhos e minha esposa fomos à praça principal tomar sorvete e a mesma estava completamente vazia, meu pai já havia morrido há muitos anos, assim como todos os velhos emigrantes libaneses, e já não existia mais a colônia que compartilhava as alegrias e tristezas. Olho para a praça e me deparo com um velhinho, bonito, cabeça completamente branca e digo para minha mulher, “nossa é o Sr. José”, acho que é único libanês ainda vivo. Minha esposa o reconheceu, pois havia ido várias vezes ao seu armazém com minha mãe comprar trigo para quibe, que segundo mamãe, era o melhor. Não tive dúvidas e fui até ele, que não me reconheceu, identifiquei-me e ele imediatamente levantou-se, abraçou-me e começou a me falar da saudade que sentia de todos e principalmente de meu pai e contou-me que tinha ficado sozinho, todos os amigos tinham ido e que sua esposa também. Pergunto dos filhos que eu conhecia bastante, ele respondeu que estavam todos bem, que o filho era uma pessoa muito boa, as filhas moravam fora mais se preocupavam com ele, coisa que era verdade, mas para as coisas essenciais de sua vida, seus desejos, fantasias estava completamente só. Seus amigos emigrantes e todas as suas referencias haviam morrido. Disse-me que todos os dias passava um período de tempo na praça, mas não encontrava mais ninguém conhecido. Não estava deprimido, triste talvez, falou-me do filho com orgulho. Despedimos e confesso que chorei por todos, por meu pai, minha infância e juventude.
Essa história, retrata a solidão do velho, o inexorável das perdas essenciais da vida, pelas quais todos nós temos de passar. Os filhos não conseguem suprir as faltas que as perdas deixam.
Contei para minha mãe, um pouco mais nova do que Seu José, e ela me disse que as vezes tinha notícias dele através do filho, e de outras amigas e garantiu que ele estava bem.
Conclui que a solidão é inexorável, não temos como fugir, que Seu José aguentava bem porque suas lembranças o alimentavam e funcionavam como reforço da capacidade de estar só, porque sempre se precisa de objetos de amor empáticos. Tenho dentro de mim a esperança de que, mesmo por poucos minutos, consegui fazer Seu José ter a sensação de que foi acolhido em suas necessidades afetivas. Choramos.
Nova Lima, 13 de agosto de 2020.
[1] Encontro sobre Pensamento de Winnicott Curitiba- agosto de 2020
[2] Psiquiatra e psicanalista da SBPMG e SPRJ.
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