Sobre O Por que Amamos?

Apresentei no dia 17/09 em Curitiba um texto com esse nome, tentei explicar qual seria a necessidade de se amar. Escolhi explicar via a teoria winnicottiana e postulei que a necessidade de amar seria quase “biológica” visto ser a grande busca do homem e se torna uma necessidade.

IV Encontro Sobre o Pensamento de Winnicott- Curitiba Agosto de 2019

POR QUE AMAMOS?

                                                                Sérgio Kehdy

“Disse um filósofo a um varredor de ruas: “Tenho pena de ti. Teu trabalho é duro e sujo. E o varredor de ruas disse: “Obrigado, senhor. Mas diga-me, qual é o seu trabalho? E o filósofo respondeu, dizendo: “Estudo a mente do homem, seus efeitos e seus desejos.” Então o varredor recomeçou a varrer, dizendo com um sorriso: “Tenho pena do senhor também.”  (Gibran Khalil Gibran, in Parábolas)

O título vem em forma de pergunta e por isso citei uma Parábola de Gibran Khalil Gibran. Responder essa pergunta me parece impossível. Como saber a razão do amor, quase me desesperei e fui procurar nos livros. A quantidade de livros e artigos sobre o assunto é quase infinita, uma grande parte dos livros consultados são teses de mestrado e ou doutorado e implicam em vasta erudição, inclusive para serem corrigidos. Logo percebi que as leituras, embora enriquecedoras e interessantes, estavam muito distantes de mim e de meu objetivo. O que fazer com tudo que li? Fui tomado de grande desanimo com a ideia de fazer um texto de citações, preocupar-me com bibliografia correta e decidi que correria o risco de pensar livremente e usar de forma pessoal o que estudei e o que sou. Seja o que Deus quiser.

Fui alimentado por um livro que estudei no colegial no interior de Minas, Introdução à Filosofia, escrito por um professor espanhol chamado Morente[1]. Ele começa falando da importância das vivências e explica que podemos passar anos estudando a cidade de Paris, saber o nome de todas as ruas, de todos monumentos e praças, de todas as estações e conhecer a história de Paris, mas tudo isso é completamente diferente de passar algumas horas apenas em Paris. Esse exemplo me marcou profundamente e todas as vezes que tentei fazer isso, estudar e falar sobre sem as vivências, acabei me arrependendo, pois tinha o sentimento de ser falso. Horrível.

Conclui isso e pensei em outro impasse, mas como falar das próprias vivências de amor, coisa que nem Winnicott fez. Lembrei-me de Edgar Morim[2] que escreveu um livro autobiográfico e na introdução ele diz, “se estiverem esperando que eu vá contar sobre meus casos amorosos não precisam ler o livro.”  Conclui que também não poderia usar meus romances pessoais, reais ou imaginados, pois soaria como uma confissão. Encontrei a saída, da forma que sempre faço, que é usar minha experiência de analista e usar tudo que sei para associar livremente.

O amor é incrível, assisti um filme recente no Netflix chamado Newness, que é muito interessante porque se trata do amor contemporâneo, já falando do Tinder e das conquistas pelos aplicativos. No filme as conquistas são rápidas, a intenção primeira é fazer sexo, o que é conseguido com bastante facilidade e o estranho era exatamente alguém falar de amor ou os encontros se repetirem. Adorei o filme porque é o mundo de hoje, a forma como o amor acontece na atualidade. O ator e comediante Aziz Ansari[3] escreveu um livro sobre o assunto, chamado Romance Moderno e explica que como não estava entendendo as relações atuais saiu a procura de livros sobre o assunto e nada encontrou, então pesquisou e escreveu o livro. O filme e o livro são exemplos vivos da atualidade, ou seja, a turma manda emojis e isso pode ter vários significados e suscitar várias perguntas, a gama de ofertas é enorme e tudo acontece sem muita conversa ou discussão. No filme, Gabi, marca com um cara e Martin com uma menina, ambos através do aplicativo, Gabi fala para as amigas que não se interessava por namorados e procurava apenas “caras” que a fizessem “gozar”, Martim também usa o mesmo raciocínio. Ambos vão para os seus encontros, Gabi faz sexo com um rapaz que a despreza e Martin fica sabendo que sua parceira tinha ingerido muitos comprimidos de Rivotril, cuida dela e vai embora. Os dois frustrados voltam para o aplicativo e marcam um encontro. Comentam seus encontros e falam francamente sobre o assunto. Vão para casa de Martin e começam um caso, na verdade apaixonam-se e se sentem atraídos e conseguem grande performance sexual. Gabi insistia que ele a fazia ter “orgasmos”. O filme mostra o conflito intenso que começa a aparecer, os incômodos do amor, o peso de estar ligado a alguém. Fogem disso e resolvem a ser um casal aberto, ou seja, podiam transar livremente com terceiros, mas fariam uma dupla imbatível. Entram nesse jogo e Martin racionalizava a questão dizendo para seu amigo casado e pai de uma filha que enquanto ela só gozasse com ele, não haveria motivos de preocupação. Assim o filme se desenvolve, as traições acontecem sem serem traições porque são ditas, mostram com clareza a tentativa de unir as duas coisas, amor e liberdade, amavam-se e eram completamente livres, e a verdade dita “nua e crua” limpava tudo. O filme é intenso, claro que os atores são jovens e bonitos, mas bastante naturais e verdadeiros. Vários pequenos conflitos aparecem e mesmo com eles, os dois continuavam em sua tentativa de ter um casamento livre. Até que as ofensas crescem de intensidade e começam a perceber o absurdo da vida deles. Rompem e Gabi vai viver com um homem mais velho e sua filha, diz para Martin que teve orgasmo com ele e prontamente a coisa torna-se quase violenta. Interessante é que Martin tenta não falar dele mesmo para ela, que reclama e deseja saber sua história, mas ao mesmo tempo, ela tinha muito mais dificuldade em ser monogâmica. Esse para mim é um dos pontos cruciais do amor atual e livre, a dificuldade de lidar com a intimidade. A intimidade física é total, mas funciona como defesa contra o medo do amor e contra a intimidade psíquica. No fundo ambos têm o mesmo medo. Mostram com clareza todas as questões do amor, todos os livros e tratados filosóficos aparecem no filme, o que me fez concluir que a questão do amor permanece a mesma. Falam do amor romântico e do amor apaixonado, da sexualidade desvinculada dos afetos, da fluidez do contemporâneo e da impossibilidade de não se envolverem. Aziz Ansari em seu livro, tipo pesquisa, chega a mesma conclusão, ou seja, com uma roupagem nova, com a tecnologia facilitando tudo e com a queda das barreiras, o desespero fica aparente demais e a dor dilacera e se transforma em atuações desenfreadas, porque o conteúdo amoroso continua sendo o mesmo de Shakespeare, os motivos que levam aos encontros são os mesmos e isso é a questão do trabalho, por que amamos?

O que a psicanálise pode oferecer para nós. Tudo começa em Freud, nossa casa primeira. Acusam-no de pensar o amor em termos de pulsões, o que não é verdade, fiquei pasmo de ler psicanalistas renomados separando sexualidade de amor.  Em recente tradução para o português da obra do mestre, os editores dividiram por temas, um dos volumes tem o seguinte título; “Amor, sexualidade, feminilidade”[4]. A introdução é muito boa e os autores esclarecem com poucas palavras a contribuição de Freud: “Contudo, nem o amor, nem a sexualidade, nem a feminilidade são apreendidos como entidades isoladas. Ao contrário, são temas que se cruzam nas mais diversas proporções e nas mais complexas articulações. Ou podemos esquecer de que Freud reuniu, em 1920, as pulsões sexuais e as de autoconservação sob o nome de Eros[5], o deus do Amor? Com efeito Freud trata das condições inconscientes e das correntes libidinais da vida amorosa, da complexidade da sexualidade feminina, do papel da disposição bissexual na subjetivação da sexualidade.” Como não é meu interesse fazer uma viagem pelas teorias psicanalíticas sobre o amor, acho conclusiva essa citação que mostra de forma clara de como amor e sexualidade estão juntos. Quando se fala de amor entre dois seres humanos, chego a duvidar se pode existir amor sem desejo ou fantasia sexual acoplado. O contrário é possível e milhões de vezes realizados, mas assim mesmo tem algo que pode ser chamado “like love”. Um paciente me dizia que frequentava as casas de prostituição, mas que quando pensava no assunto, percebia que sempre existia afeto, por exemplo, o que o levava a fazer determinadas escolhas e muitas vezes, naquele momento, teve a sensação de estar “amando” a companheira, claro que esse homem foi um analisando com grande capacidade associativa e emocionalmente rico, mas esse relato me trouxe certa convicção de que sempre os afetos, as simpatias que são diretamente ligadas a eles, tem alguma participação. Freud também mostra que quando se dissocia sexualidade do amor entramos no campo das patologias.

Parto sempre do princípio que o Amor é um termômetro e um grande indicador da capacidade mental do sujeito. É através das relações amorosas onde as dificuldades aparecem e impedem o usufruir do objeto escolhido e amado. Todos os sintomas psíquicos terão alguma repercussão no amor e nas relações amorosas. Isso é a maior prova de que o amor é universal e ninguém pode fugir dele, daí eu dizer que o amor é “biológico” e faz parte da natureza do homem. Talvez seja o herdeiro da função do Apego, tão bem descrito por Bowlby[6] e tão pouco estudado no nosso mundo psicanalítico.

Então, amor, pulsão e apego estão juntos e todos fazem parte do mais profundo e inevitável do ser humano.

Outro conceito freudiano definitivo para entender o motivo do amor é a questão do narcisismo. Tenho para mim que de toda a obra psicanalítica é o ponto mais determinante do sujeito. A representação que se têm de si mesmo determinará sempre como será a visão do outro e em consequência quais necessidades narcísicas se procurará no objeto de amor e pode ser um dos determinantes do porquê amamos.

Interessante é que a teoria psicanalítica do self que estudou isso profundamente e de forma tão profícua e no mesmo tempo que Winnicott, não mantiveram um canal de comunicação, sendo que usando outra linguagem operam conceitos muito semelhantes.

Winnicott em Tudo Começa em Casa afirma que segue a teoria freudiana, começo por aí, para nunca deixar dúvida sobre a importância de Freud em toda e qualquer teoria e ou fala psicanalítica. Tenho repetido que Freud não pode ser considerado um autor, precisa ser visto como o idioma psicanálise, daí passarei para minha visão Winnicottiana do porquê amamos?

Amar é “biológico” algo que assim chamo porque faz parte do desenvolvimento humano e sem depender de raça, cultura ou qualquer outra coisa. Seguindo a risca o pensamento do mestre que mais usamos, o mundo (meio ambiente) favorável vai permitir que esse potencial se torne uma capacidade e se transforme em uma necessidade atendida, que se assim não for, será uma catástrofe na vida da pessoa. Todas as patologias passam por aí. Atendo um jovem cujo diagnóstico através de testes e outras escalas foi de Asperger, um transtorno do espectro autista. Esse rapaz sabe tudo, tem dificuldade de articular as palavras, dando um tom de ligeira confusão, mas consigo compreende-lo com um pouco mais de atenção (menos flutuante), inclusive quando fala em inglês, idioma que sabe mais do que eu. Não é feio, mas tem algo de “diferente”, difícil de descrever. Fala muito e se queixa bastante da vida e de suas dificuldades, acha-se desatento e tem uma autoimagem horrível, não consegue ver nada de bom nele e a mãe, mesmo bem intencionada acaba por critica-lo muito, mas uma das grandes queixas é o fato de não conseguir que nenhuma garota se ligue a ele. Sofre muito e acaba por se masturbar compulsivamente. Deseja uma namorada e através dos aplicativos consegue marcar encontro, mas quando as meninas o conhecem desistem. Não vou discutir o caso, mas apenas esclareço que o amor ou a falta dele, que dá no mesmo, é sempre determinante. Esse paciente me lembra personagens do filme que citei acima e ao qual voltarei.

O espaço potencial ou da ilusão é a chave para compreender a razão de precisarmos amar. Serei um pouquinho chato, mas não se trata de amor em Winnicott e sim do amor e talvez o uso de sua teoria seja a melhor para nos aproximar dessa compreensão.

Esse espaço será determinante da capacidade criativa, do rumo eterno à independência e da subjetividade.  Essa última é fundamental para o sentimento de identidade. A ilusão em sua origem é quase igual a fusão, estamos falando do reino do objeto subjetivo, ou seja, o bebê cria tudo a sua volta, algo equivalente ao narcisismo primário, os objetos nos pertencem e são criados por nós. Sabe-se que nenhuma vivência desenvolvida desaparece completamente, ela é acrescida das aquisições incessantes. A vida é isso, nunca se para de acrescentar o novo à subjetividade existente. Stern[7] em seu livro deixa isso claro, nada é perdido, deixa apenas de ser dominante.

O Amor como algo intrínseco e inexorável do homem, vai passar por várias etapas de desenvolvimento e tal como o comer jamais será desnecessário.

O bebê que recebe holding suficiente sente-se seguro, seus momentos de onipotência permitidos pela mãe vão criando condições para uma representação suficiente de si mesmo, o narcisismo vai se desenvolvendo sem grandes prejuízos. O objeto é subjetivo, pertence incondicionalmente ao infante, pois é criado por ele. Freud usa a expressão Sua Majestade o Bebê, tudo gira em torno dele e as frustrações existentes de forma suportável vão levando ao crescimento e à individuação e a separação. Vejam como a paixão normal do início de um caso amoroso se parece com isso. Início os dois se misturam, se confundem e vi isso em um filme ontem “o casal unindo as bocas (sem beijar) e dizendo que queriam respirar a respiração do outro.” Achei a cena paradigmática da paixão, onde tudo funciona através do objeto subjetivo, as diferenças não podem existir e o narcisismo impera, porque o objeto importa enquanto meu e só para mim, daí as paixões serem tão perigosas, facilmente se regride a esse estado se não existir uma força contrária, que segundo Ogden[8], na dialética fantasia e realidade pese a favor da realidade. São mil exemplos na literatura.

No amor normal, a paixão vai se transformando e passa a ser o que se chama de amor, embora eu tenha grande dificuldade em separar um do outro, quando se permite momentos nos quais os amantes se fundem e conseguem se separar, aqui que acho que o coroamento do amor é a relação sexual genital, que além do prazer funcional permite a fusão e depois da satisfação vem a separação prazerosa. Maravilha isso. Aviso que não temos preconceitos contra práticas pré genitais, pois é possível que o prazer sexual, em qualquer situação traga a lembrança biológica do amor. Esse é o motivo que não dissocio amor, que estou chamando de necessidade biológica, da sexualidade. A última é uma maneira forte de se concretizar o amor. Imagino que nas formas de amor entre pessoas do mesmo sexo seja absolutamente idêntico. Já ouvi inúmeras vezes de analisandos relatos intensos de momentos de grande amor.

Então, por que amamos? Acho que se torna uma necessidade de reviver esses momentos de forma realística, algo sem o qual ficamos incompletos, coisa que assistimos todos os dias em nossas clínicas. Amar é uma forma de reviver o espaço da ilusão, o reviver os momentos de onipotência que são permitidos pela mãe suficientemente boa, viver a fusão e se separar sem medo de desintegração, muito pelo contrário, esses momentos satisfeitos colaboram em muito para a certeza de ser um ser subjetivo e integrado. É para nos reabastecermos dessas vivências que precisamos de amar.

Claro que, qualquer hipótese é apenas uma hipótese.

Não me preocupei em falar de outras formas de amor, que com certeza existem, falei apenas do amor necessário para sobreviver, para produzir e ter uma vida inteira e completa.

Volto então ao filme, onde mostra o amor contemporâneo que na verdade não tem nada de novo. A fidelidade, um dos temas centrais do filme, ou seja, quando se trata de um casamento aberto, torna-se insuportável porque deixou de ser a vivência de momentos de onipotência e do ser desejado e querido incondicionalmente.

Essas são as ameaças narcísicas, claro que um individuo com self coeso é capaz de suportar as separações sem medo, sem ameaça, mas imaginem alguém que teve de lutar precocemente por um pouco de “alguém”, com certeza vai ficar ameaçado com cada ausência e com cada separação.

Apesar do amor ser sublime, ele é uma repetição de satisfações infantis e por isso tão sujeito a brincadeiras, piadinhas e dores. 

Terminarei com uma poesia de Álvaro de Campos, um dos Fernando Pessoa, nosso eterno salvador para dar um bom impacto no final de nossos textos.

Todas As Cartas de amos são

Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor.

Como as outras,

Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,

Têm de ser

Ridículas

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor

É que são

Ridículas.

Quem me dera no tempo em escrevia

Sem dar por isso

Cartas de amor

Ridículas.

A verdade é que hoje

As minhas memórias

Dessas cartas de amor

É que são

Ridículas.

(Ficções do Interlúdio / Poesias de Álvaro de Campos) [508]

Nova Lima, 21 de julho de 2019.

Resumo: Faz uma apreciação do amor na contemporaneidade e mostra o amor como uma necessidade “biológica” e explica que podemos dizer que precisamos do amor como forma de reabastecimento dos momentos vividos no espaço da ilusão, no qual a mãe permite que o objeto subjetivo exista e o sentimento de onipotência se experimentado. Afirma o autor que isso é vivido em um ato sexual, uma forma de concretizar o amor e após o orgasmos os seres voltam a um estado anterior prazeroso e experimentam uma sensação de plenitude de ser amado incondicionalmente.


[1] Morente, M. Garcia. Lições Introdutórias de Filosofia, 1938.

[2] Morin, E.  Meus Demônios, Editora Bertrand Brasil Ltda., Rio de Janeiro, 2003

[3] Ansari, A. Romance Moderno, Paralela.

[4] Iannini, G; Tavares, P.H. Obras Incompletas de Sigmund Freud, Autentica, BH, 2018.

[5] Spalding, T.O. Dicionário de Mitologia Grego-Latina. Eros casa com PSIQUE da união nasce a Volúpia.

[6] Bowlby, J. Apego, Martins Fontes, São Paulo.

[7] Stern, D. N. O mundo Interpessoal do bebê. Artes Médicas, POA

[8] Ogden, T.  Espaço Potencial, in Táticas e Técnicas Psicanalíticas, Artes Médicas, POA, 1990

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