Narciso e Édipo: Solidão

Narciso e Édipo: Solidão

As duas lendas da mitologia fundantes da psicanálise são de grande beleza e da maior importância por representarem as vivências mais marcantes do desenvolvimento psicológico do homem.

Ovídio em sua obra Metamorfoses, descreve de forma magistral a evolução do homem. Descreve a lenda de Narciso e sua relação com Tirésias, a quem foi dado por Zeus (Jupiter) o dom de saber o futuro. Céfiso enlaça Líriope em seu leito e a violenta e dessa união nasce Narciso, de rara beleza e já digno de ser amado pelas “ninfas”. Tirésias vaticina que ele poderia ter uma vida longa “se não conhecesse a sim mesmo”. Narciso tinha dezesseis anos e podia ser tomado tanto como menino e também como um moço. Todos que o viam ficavam literalmente alucinados por ele. Ovídio em seu texto realça a “tão rude soberba” mostrada por Narciso, que fazia com não permitisse ser tocado por nenhum jovem e por nenhuma ninfa. É visto pela ninfa Eco, amaldiçoada por Juno, que era “detida” por sua fala quando estava prestes a surpreender Jupiter deitado com suas amantes. Condenou-a então a não responder com silêncio quando falavam com ela e sim repetir tudo que ouvia. Eco vê Narciso que andava sem rumo pelos campos e se apaixona loucamente por ele e resolve segui-lo, mas apesar do intenso desejo de chegar e suplicar por seu amor, não podia, pois nunca conseguiria falar primeiro, mas podia repetir e ressoar as últimas palavras e se dispôs a fazer isso, ou seja, esperar os sons emitidos por Narciso e lhe devolver suas próprias palavras. O texto reproduz diálogos entre Eco e Narciso. Ele a chama e ela repete: Narciso diz, “Vem para perto de mim, unamo-nos!” ela com a maior boa vontade repete: “unamo-nos”. Saí de seu esconderijo e se joga para abraçar Narciso que foge e lhe diz: “Afasta-te de mim, nada de abraços! Prefiro morrer, não me entrego a ti!”. Eco respondeu somente: “Me entrego a ti.”

Eco então esconde-se e protege com flores o rosto corado de vergonha, e, desde então, vive naquelas grutas isoladas. Ela definha, sua pele fica seca e a própria essência do corpo se evapora no ar, mas  avoz sobrevive e os ossos também, dizem que virou pedra, mas o som de sua voz é ouvida por todos, mesmo que não possam vê-la. Narciso continua a desdenhar de todos que o querem e um desses lhe roga uma praga: “que ele ame, por sua vez, e não possa possuir o objeto amado.” Ovídio conta de forma linda o resto da lenda a qual todos sabem o desfecho. Depara-se com sua imagem e fica perdidamente apaixonado por si mesmo. Interessante é que todos os gestos e tentativas de abraçar a imagem é repetida pela sombra, a qual ele não reconhecia como própria. Por mais que tentasse não conseguia abraçar a si mesmo, e assim morre e para perpetua-lo nasce uma flor.

O que importa aqui é o fato de Narciso não apresentar qualquer vislumbre   do não eu, ou seja, o não eu não existia. Reinava onipotente e sem ver o mundo e não é casual que uma de suas apaixonadas foi Eco, que apenas confirmava com suas repetições a certeza de que no mundo só ele existia. A lenda não faz menção a sua mãe, apenas realça a solidão total de Narciso e sua recusa, talvez medo de se relacionar com quem quer seja. Ele não era só, na verdade, os outros não existiam, o assustavam e o ameaçavam. O desenvolvimento de si mesmo não ocorreu, não pode ver o outro sem saber quem é e que tem existência própria. Incrível na mitologia é o inexorável, não dá para fugir de si mesmo e nunca se consegue pular as etapas.

O narcisismo precisa ser transformado e para isso é fundamental que “se veja, que seja reconhecido e, possa então, se reconhecer. O que determina isso é o olhar da mãe que reflete o rosto do filho. Para se relacionar com o outro é preciso aguentar estar só, pois caso contrário não haverá relações e sim fusões, ou seja, necessidade vital do outro para manutenção de si mesmo. Então, a capacidade de estar só, que também chamo de individuação, a consciência de que se existe “separado” e com vida própria é fundamental para ter e amar o outro. A famosa frase do paradoxo winnicottiano, “preciso do outro para estar só”, vale em sua inversão, preciso aguentar estar só para ter o outro.

Édipo, outra figura trágica e infeliz, cuja capacidade de estar só não se completou. Chama-se complexo de Édipo, exatamente porque ele não foi capaz de ultrapassar essa grande tormenta pela qual todos os seres humanos têm de passar. 

Existem várias versões de Édipo, o professor Junito Brandão, que foi um grande conhecedor dos mitos e de mitologia, as descreve em sua monumental obra. Freud se baseia na tragédia escrita por Sófocles, Édipo Rei.  De novo, Tirésias que perdeu a visão pela arrogância de ter aceito ser juiz de uma disputa entre os deuses, como nos conta Ovídio de uma maneira engraçada; Júpiter conversava com sua mulher Juno e afirmou para ela que o “prazer que ela sentia era maior do que o dos homens”. Ela nega e resolveram, para tirar as dúvidas consultarem Tirésias, que havia sido transformado em mulher pelas duas serpentes e depois recuperado a forma anterior, então, por ter vivido as duas situações, pois havia sido mulher e voltara a ser homem, ele saberia resolver a contenda. Perguntado, ele concorda com Júpiter, mas Juno não levou o caso como o esperado, ficou irritada e tirou a visão do “juiz dos deuses”. Um deus não pode desfazer o que outro fez, mas para compensar, Júpiter dá para Tirésias o dom de ver o futuro.

Édipo, filho de Laio e de Jocasta, nasce e perguntam a ele sobre o futuro de Édipo; prontamente responde que ele iria matar o pai e se casar com a mãe. Laio então ordena que se mate Édipo, que foi dado a um pastor que o poupa, aqui, as várias versões sobre Édipo divergem. Em Sófocles, Laio amarrou os pés do menino pelos tornozelos antes de entregar ao pastor que o abandonaria no Monte Citeron. Em outras versões, a criança tem os calcanhares perfurados. Estou tentando descrever a crueldade do abandono. Versões de estudiosos dos mitos dizem que mutilaram Édipo para que ninguém o recolhesse, pois era costume abandonar crianças aleijadas e mutiladas. É somente a partir de Sófocles que as cicatrizes serviram como sinal de identificação do menino como filho de Laio.  Várias versões também de como ele chegou à corte em Corinto, uma delas é de ter sido dado pelo pastor de Laio ao pastor de Corinto que o entregou a Pólibo, rei de Corinto, que o adotou, visto que não tinha descendentes. Outra é que, abandonado, foi encontrado por Peribéia, esposa de Pólibo. O fato é que foi criado pelo casal e, também recebe o vaticínio de que mataria o pai e se casaria com a mãe, então foge de Corinto e vai de encontro ao seu “destino”, o que se acredita, em busca de sua identidade, do saber quem sou e de onde vim. Vários trabalhos fazem essas divagações.

Também não se entende como Jocasta não percebe que o assassino de Laio era o seu filho, sugerindo que talvez fosse uma situação que a agradava muito. O incesto não ser por parte do filho e sim permitido pela mãe.

Jocasta, quando percebe que Édipo começa a ficar atormentado com a possibilidade de ter filhos com a mãe, diz a ele: “Não deve amedrontar-te, então, o pensamento dessa união com tua mãe; muitos mortais em sonho já subiram ao leito materno. Vive melhor quem não se prende a tais receios.”

Nada mais Solidão do que as estórias de Narciso e Édipo, dois mitos brilhantemente usados por Freud para falar do desenvolvimento do homem.

As descrições aqui relatadas mostram que ambos foram entregues a própria sorte, absolutamente abandonados e vivendo sem contar com o outro para referencia-los e nomeá-los.

O óbvio fundamental é que tanto Narciso como Édipo tiveram um fim trágico e “brincando” aqui, pode-se afirmar que Narciso não conseguiu resolver “seu narcisismo, os golpes narcísicos sofridos por todo ser humano”, assim como Édipo não ultrapassou a atração e o impulso de se chegar a mãe, ou seja, não resolveu seu “complexo de Édipo”.

O trajeto de Narciso a Édipo requer uma mãe suficientemente boa, uma mãe que determine e permita que o outro seja reconhecido e assim propicia o desenvolvimento da capacidade de estar só, que é a própria noção de que “eu existo, tenho minha subjetividade e meu sentimento de identidade seguros, e para isso conto com meus objetos de amor, tenho mãe, pai, pessoas com as quais tenho uma relação de amor, que me r e de que me ratificam e de quem eu gosto, mas posso viver separado”. Tolerar estar só é determinante do ser.

As teorias e os conceitos de Winnicott são todos inter-relacionados, claro que implica holding, rumo a independência, o sentimento de existir verdadeiramente, a capacidade de se preocupar com o outro, a generosidade que vêm disso e a firmeza do self, que se sente integrado e firme, ou seja, poder entrar nas situações sem medo de colapsos. 

A capacidade de estar só implica todos esses acontecimentos, pois trata-se de um desenvolvimento e faz parte de todo um processo e como todas as possibilidades humanas não é estático, ou seja, pode ser abalado depois de adquirido, mas jamais será com a intensidade de quem nunca as possuiu.

Aqui, estou mais preocupado com sínteses do que com análises. Tenho afirmado que a Capacidade para estar Só demonstra um dos pontos da vida mental plena e completa. É condição para ser adulto, aguentar ficar só e saber-se inteiro e sem o sentimento (incomodo) de solidão. 

Narciso morreu tentando encontrar um objeto responsivo, estava em busca da primeira fase da formação do self, se apaixona pelo espelho, que no caso não era o olhar da mãe e sim ele mesmo. Fica claro, quando o mito descreve que a imagem sombra fazia os mesmos movimentos, sugerindo que não tinha o sentimento de estranheza que mostrava em relação a todos os outros que se aproximavam dele. Fiquei imaginando o desespero e a solidão quando não se consegue respostas concretas. O desespero de quem nunca é visto ou ouvido e percebe somente o Eco de suas próprias palavras.

Para Narciso sobreviver precisaria ter tido uma mãe que espelhasse sua beleza, que propiciasse a ele a condição de ir aos poucos se integrando e, assim poder ver e acreditar que a existência do outro não o ameaça de engolfamento.  Nunca haverá uma situação de independência a ponto de não se precisar mais do outro. Winnicott frisa muito a ideia de que se caminha para independência, mas nunca se chega lá.

Se tudo corre bem, o narciso começa a ver outro, busca o outro e chega a ser Édipo e aí terá de vencer outra guerra.  

Édipo foi abandonado e isso deve ter deixado marcas indeléveis, vejam como teve de se desenvolver para chegar até ao trágico. Cumpre o desenvolvimento, luta para não morrer nas mãos de Laio e o mata, e vai triunfalmente buscar a mãe e quando tem o insight final e fura os próprios olhos para não ver, me passou pela cabeça o sentimento de solidão tão intenso que podemos chamar de desamparo:

“Aí de mim! Aí de mim. As dúvidas desfazem-se! Ah! Luz do sol. Queiram os deuses que esta seja a derradeira vez que te contemplo! Hoje tornou-se claro para todos que eu não poderia nascer de quem nasci, nem viver com quem vivo e, mais ainda, assassinei quem não devia!”

Para ambos faltaram os ingredientes para a capacidade de estar só, o poder viver consigo mesmo e suportar o outro, ou seja, construir a subjetividade que é o determinante do sentimento de identidade.

Quando se tem holding e essa capacidade de ser si mesmo, de estar só com calma e sem até perceber que está só, floresce um ser humano inteiro, adulto e que consegue abrir mão dos outros, pois não necessita da posse de ninguém para existir. No caso de Édipo, a mãe não pode deixar acontecer o concreto, como é óbvio, mas precisa de criar uma situação onde a criança suporte a frustração de não ter os pais e assim mesmo “saber” que se pode sobreviver.  Nas meninas, acho que o mecanismo que me refiro é o mesmo, não tenho pênis, mas sobrevivo sem ele, sem meu pai e sem minha mãe, porque ao mesmo tempo os tenho.

O sentimento de solidão não pode ser percebido como algo doloroso, ao contrário, deve ser motivo de júbilo e alegria.

Tenho visto quadros patológicos de monta, que custei a associar com uma capacidade precária de estar só, nos quais a busca sempre é de uma situação de fusão. Impressionante.

Para estar só é necessário o outro internalizado, mas para se ficar com o outro é fundamental ter a capacidade de estar só, saber que eu sou eu e que

sou capaz de amar e compartilhar.

Termino transcrevendo o final da tragédia:

Corifeu

Vede bem, habitantes de Tebas, meus concidadãos!

Este é Édipo, decifrador dos enigmas famosos;

ele foi um senhor poderoso e por certo o invejastes

em seus dias passados e de prosperidade invulgar.

Em que abismos de imensa desdita ele agora caiu!

Sendo assim, até o dia fatal de cerrarmos os olhos

não devemos dizer que um mortal foi feliz de verdade

antes dele cruzar as fronteiras da vida inconstante

sem jamais ter provado o sabor de qualquer sofrimento!”

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