O PODER NOSSO DE CADA DIA

                                                                                              Sérgio Kehdy

O uso do poder no dia a dia das pessoas.

Aspectos da arrogância e da onipotência.

O narcisismo de uso diário.

Necessidade arcaica de ser importante.

“Não há direito de punir. Há apenas poder de punir”

Clarice Lispector

A escolha desse tema foi em função de um encontro sobre o pensamento de Winnicott do qual participei. O tema era “Poder e Sofrimento”, e a primeira coisa que me veio à mente foi a questão do objeto subjetivo.

Perguntei-me: por que as pessoas precisam de poder e não abrem mão dele? Isso me intrigou e passei a colecionar situações interessantes de uso do poder no dia a dia.

Fui gostando da ideia e comecei a refletir sobre o assunto. Percebi também que esse exercício do poder no dia a dia é causa de muito sofrimento, tanto para as pessoas que recebem as ordens quanto, muitas vezes também, para os que dão as ordens.

Depois, passei a notar como as pessoas buscam o poder. Para isso, bastou apenas observar uma manhã na academia de ginástica.  

Pensei nas doenças e no envelhecimento que trazem a perda do poder e que podem ser causas de grande sofrimento psíquico. Fiquei meio perdido porque o número de situações nas quais o poder nosso de cada dia acontece de forma clara é muito grande. Em todas as relações observadas, o poder está presente. No trabalho, nas escolas e nas relações com aqueles que são supervisionados e alunos são as situações mais óbvias.  Em casa, com os filhos e com as secretárias, nas relações amorosas e nos relatos dos pacientes também é possível verificar a sua presença.

Deixo de lado o poder nosso no setting analítico, pois quero falar da vida e não de aspectos da relação psicanalítica. Para evitar problemas e constrangimentos para todos, deixo de lado, também, o uso do Poder nosso de cada dia nas instituições psicanalíticas.

Faço, aqui, alguns relatos ilustrativos. O primeiro, representando as relações de trabalho. Meu professor da academia, formado em Educação Física, e que leva a sério o que faz, me relatou aborrecido, de forma queixosa, sobre o dono da academia onde trabalha, que o interrompeu durante uma aula para mandá-lo fazer algo que nada tinha a ver com a função para a qual foi contratado. É possível considerar essa atitude como desrespeito absoluto com o profissional. A impressão é a de que o professor é “meu funcionário”, portanto, “criado por mim” e, não é, preciso vê-lo com uma existência própria. 

A segunda ilustração diz respeito a uma paciente que discute com a filha, que queria ter um gato, e ela resolve a questão com a seguinte frase tão pouco original e comum: “enquanto estiver na minha casa, mando eu. Não teremos gato. Quando tiver a sua casa, faça como desejar”. Essa fala tão simples é arrasadora. Acaba com o direito da filha. Sua casa, onde vive e tem seus pertences, não é sua. A onipotência domina. Eu fiz e criei, então não pode ter vida própria. 

Já nas relações amorosas é impressionante como aparece esse poder. Uma paciente, que se relacionava com um homem a quem idealizava muito e com quem viveu uma grande paixão, com promessas de que ficariam juntos, passou a achá-lo estranho e com atitudes inusitadas, e me relatou o seguinte caso. Ela o tinha quando ele decidia que sim. Quando ele a desejava, ligava carinhoso e ia ao encontro dela completamente apaixonado. Do contrário, quando era ela quem ligava ou mandava uma mensagem mostrando o desejo de vê-lo, ele a maltratava e falava coisas horríveis. O que mais a impressionava era que ele não tinha a menor crítica do absurdo de suas atitudes e a culpava por tudo, inclusive, a desmerecia, deixando-a muito mal. Passados poucos dias, ele ligava para ela apaixonado e tudo acontecia novamente.                                                             

Em uma reunião com residentes, um jovem brilhante fez um comentário contrário ao do professor, que respondeu, dizendo que o aluno era muito jovem para contradizer a experiência dele. Lembro-me sempre do Prof. Perestrello e aproveito para homenageá-lo. Ele dizia que usar a experiência em si é falta total de argumento. É o uso do poder nosso de cada dia. “A experiência é o nome que damos aos nossos erros”, essa frase é retirada da internet e atribuída a Oscar Wilde, também colocada como um provérbio da sabedoria do Talmud. O uso da experiência como poder é uma forma de calar o outro e encerrar questão.

Outro fato que merece ser mencionado é o poder intelectual usado para destruir e arrasar os outros, o que vemos na mídia com frequência.  

Depois do interesse no assunto, passei a ver, todos os dias, exemplos do exercício do poder, o que normalmente não percebemos nem nos damos conta, exceto quando são marcantes demais.

Não vou abordar nem as feridas nem o narcisismo das pessoas que recebem as ordens do poder alheio. Quero estudar e discutir o Poder Nosso de Cada Dia do ponto de vista da necessidade das pessoas, diria que, talvez da maioria, de exercerem o poder no diariamente.

Pequenas reflexões teóricas

Poder em seu sentido mais amplo é simplesmente a produção de efeitos causais e seu uso intencional de um agente para afetar a conduta de outros. (SCOTT, 2006, p. 161-163). No mesmo texto, o autor define as duas formas elementares de poder; influência corretiva e influência persuasiva. Como os próprios nomes indicam, a primeira é o uso da força e das punições; a segunda, da manipulação (sedução), significação e legitimação.

Segundo Scott, (2006) essas formas de poder são encontradas nos atos da vida cotidiana e de poder interpessoal, ao qual estou chamando de poder nosso de cada dia. Ele cita, para completar, que “estruturas das famílias e unidades domésticas, assim como a esfera privada da intimidade e da sexualidade, são contextos nos quais o poder interpessoal é aperfeiçoado e exercido, dando ao poder as mais variadas formas”. (p. 163)

No famoso curso de Ética, realizado no Rio de Janeiro pela Secretaria Municipal de Cultura em 1991, Antônio Candido apresentou um trabalho chamado “A culpa dos Reis: Mando e Transgressão em Ricardo II” (CANDIDO, 1993, p. 89), por meio do qual de forma simples e esquemática diz que “a estrutura do mando pressupõe três elementos: um princípio geral que o justifica; uma função que o encarna; uma pessoa que o exerce.” Então, podemos dizer que exercer o poder quando se é investido de uma função tem todo sentido, mas a coisa complica pelo terceiro elemento, ou seja, a pessoa que o exerce. Assim, a pessoa que exerce o poder nosso de cada dia é o objeto de minhas reflexões.

Farei apenas menção à intolerância que, de um modo geral, acompanha o poder nosso de cada dia. A polaridade existente entre o mesmo (igual) e o outro. Aos mesmos, o respeito e aos outros, nada.  Se o mesmo se torna outro, deixo de apreciá-lo. O poder se impõe.

O primeiro conceito psicanalítico que me ocorre é o do Narcisismo das Pequenas Diferenças, tão conhecido de todos. A principal característica é que se trata de algo que aparece diante dos nossos semelhantes, em que existem apenas pequenas diferenças. É o máximo de nosso dia a dia. Tentei rastrear as vezes que Freud fala do assunto, mas confesso que consultando o Dicionário Internacional de Psicanálise, orientado por Alain Mijolla (2002), me deparei com o verbete escrito pelo próprio, que fez todo esse trabalho para mim, além de definir com precisão, evoca Crawley (citado mais de uma vez por Freud), que descreve o “tabu do isolamento”, em que mostra que é precisamente as pequenas diferenças entre indivíduos, que, quanto ao resto são semelhantes, que formam a base dos sentimentos de estranheza e  hostilidade entre eles. Mijolla coloca que fica tentador acreditar que as tendências hostis são as que prevalecem, pois sempre ganham das tendências à solidariedade.  

É no Mal-Estar da Civilização que Freud dá uma ênfase maior no conceito, colocando como necessidade do ser humano manter de fora dos vínculos amorosos algumas pessoas para receberem as cargas de agressividade. Citando Freud (1930, p. 80-81),

sempre é possível ligar um grande número de pessoas pelo amor, desde que restem outras para que se exteriorize a agressividade. Certa vez discuti o fenômeno de justamente comunidades vizinhas, e também próximas em outros aspectos, andarem as turras e zombarem umas das outras, como os espanhóis e portugueses… etc. Dei a isso o nome de narcisismo das pequenas diferenças, que não chega a contribuir muito para seu esclarecimento. Percebe-se nele uma cômoda e relativamente inócua satisfação da agressividade, através da qual é facilitada a coesão entre os membros da comunidade.

A importância de se criar pequenas diferenças para poder unir e estreitar os laços de mesmos e outros são bem descritos por Héritier (1998, p. 24-27), que nos mostra como não é possível pensar o Eu (mesmos) sem colocar simultaneamente a existência do Outro (outros), além de fazer relato, em seu texto, do trajeto histórico antropológico da evolução do matar os outros até a tolerância forçada com o diferente.   

Tudo que foi dito deixa claro o que Ricoeur (1998, p. 20-23) afirmou sobre a intolerância, que “tem sua origem em uma predisposição comum a todos os homens, a de impor suas crenças, desde que disponham, ao mesmo tempo, do poder de impor e da crença na legitimidade desse poder”.

O que foi dito até agora comprova a necessidade do poder e de como as pessoas vão atrás desse exercício no dia a dia, como falei e ilustrei. Quais os mecanismos metapsicológicos que levam as pessoas a precisarem do poder nosso de cada dia ou de buscarem tanto a fantasia de poder e de força?

Do esquema descrito sobre a estrutura do poder, focalizaremos a pessoa que o exerce. O livro de Victor Manoel Andrade (2014) é uma obra de fôlego e um verdadeiro tratado sobre narcisismo. Coloco-o como uma das principais e originais publicações psicanalíticas recentes. Ele apresenta toda uma ideia própria e uma articulação original para explicar o desenvolvimento narcísico além de servir de compreensão metapsicológica de teorias modernas, como as de Winnicott e outros. Vamos ao que ele diz sobre poder (ANDRADE, 2014, p. 133-141) após uma introdução do desenvolvimento narcísico. Sua premissa é a de que todo desenvolvimento narcísico é função do objeto mantenedor da vida e da onipotência. Ele recorre a Freud para mostrar que depois da angústia própria do nascimento, o que mais conta é a angústia de separação do objeto, a qual vai desdobrar no futuro em ansiedade pela perda de amor. Então, o ter e o manter o objeto por perto funciona como salvaguarda do sentimento onipotente do narcisismo primário, o que é conseguido através de identificações, não há ideia de que o objeto não pertença ao bebê. Citando:

O desejo de possuir o objeto está ligado ao esforço para manter a onipotência primária. A noção de que existe um objeto no mundo exterior, e que é o verdadeiro detentor da onipotência sentida anteriormente de maneira ilusória pelo sujeito, faz surgir o desejo de apropriar-se dele, sentir-se dono dele ou de algo que o simbolize, como uma forma de compartilhar seu poder idealizado. (ANDRADE, 2014, p.137)

Segundo o autor, essa seria a maneira de descrever metapsicologicamente o impulso para o poder, a vontade de poder, “uma espécie de garantia de sobrevivência mediante o apoderamento do objeto garantidor da vida.” (ANDRADE, 2014, p. 138)

Então, quando isso ocorre, normalmente, o objeto (mãe) provê as necessidades do bebê, ele pode abrir mão de possuir o objeto, abrir mão de tê-lo para ser semelhante, formando a rede das relações sociais. Quando isso não acontece, quando o objeto não executa a função materna de maneira adequada, as etapas do desenvolvimento não serão ultrapassadas de maneira adequada, o “objeto continuará como posse”. Não ocorreu de maneira adequada a passagem do narcisismo primário para o narcisismo secundário, ponto nodal para o desenvolvimento narcísico. A importância dessa passagem é determinante para a harmonia que o sujeito possivelmente viverá.

No narcisismo primário, a dependência do objeto é total, mas não se tem, a princípio, noção disso. À medida que o desenvolvimento ocorre, o objeto começa a ser internalizado e isso faz com que a onipotência continue a ser alimentada, contudo, com a presença do objeto, isso torna o narcisismo completamente diferente. Ambos, tanto o primário como o secundário, visam ao movimento centrípeto da libido para preservar a vida. “Se no narcisismo primário a onipotência se justifica porque o bebê é incapaz de perceber um objeto, na fase de narcisismo secundário ela não é justificável, tendo em vista que qualquer poder do indivíduo depende inescapavelmente de um objeto.” (ANDRADE, 2014, p. 138-139). O narcisismo secundário permite a percepção do direito do objeto. Um poder exagerado que negue essa possibilidade provoca danos aos direitos dos objetos.

Para Andrade (2014, p.139), isso representa predomínio do narcisismo primário.

Poder é na verdade poder viver, e viver implica em conviver; por isso, o poder de um indivíduo adulto com ego normal implica viver em igualdade de condições com outras pessoas que têm também o direito de ter poder, na medida em que este significa capacitação para a vida.  

Esses argumentos teóricos correspondem ao que Winnicott (1953; 1969) chamou de objeto subjetivo. Tudo começa com a mãe suficientemente boa e que permite ao bebê a experiência de onipotência. Essa experiência é de fundamental importância porque, em resumo, o bebê não tem qualquer ideia da separação eu —não eu e tudo é criado por ele. Se tudo corre bem, o objeto objetivo real vai sendo apresentado ao bebê, através do uso dos objetos transicionais tão bem conhecidos de todos. Aos poucos, o uso do objeto subjetivo se transforma em criatividade, uma coisa prazerosa e um dos motivos fundamentais do viver pleno; algo que existe e ao mesmo tempo é criado por mim, um dos paradoxos da existência humana. O que é preciso enfatizar é a capacidade de o sujeito diferenciar o interno do externo. Essa é a maturidade. O objeto subjetivo não se transformando vai determinar uma impossibilidade de ver o outro, de respeitar o outro como alguém com vida própria, vai impedir o uso do objeto (WINNICOTT, 1969). Só posso fazer as coisas serem como elas são, se perceber que não são criações minhas, existem por si e assim não preciso brigar com elas como se fossem “por minha causa que elas existem” assim vivendo esgoto o que pode ter de bom e não aproveito nada, não a utilizo para o meu bem.

Todo o poder nosso de cada dia me parece estar localizado aí.  As pessoas sofrem nostalgia da perda de onipotência e precisam exercitar os restos de não evolução desse período do desenvolvimento.

Poderia desenvolver mais conceitos teóricos, mas para os meus objetivos, essas reflexões são suficientes.

Apenas quero fazer uma pequena observação de que Winnicott dá uma nova interpretação ao conceito de posições de Melanie Klein. Um exemplo vivo de criatividade. Nos encontros winnicottianos isso é pouco falado, mas a semelhança do uso de um objeto com a saída da posição esquizo paranoide me parece muito evidente, o que é diferente são as premissas básicas do ódio original e da inveja primária.

Volta ao Poder Nosso de Cada Dia

Tentarei fazer de forma rápida uma articulação de alguns dos exemplos apresentados com as teorias descritas. Quanto ao primeiro exemplo do rapaz da academia, podemos afirmar que o mandante não conseguiu fazer a passagem do narcisismo primário para o secundário. Ele não foi capaz de perceber que o objeto exterior tem vida e tem poder também, inclusive, se fosse embora naquele momento, o dono ficaria em situação difícil. Assim, o dono da academia não foi capaz de conviver. Outra visão possível é a vivência do objeto subjetivo, “é meu funcionário, uma criação minha e só pode fazer o que eu desejo”. Vejam como Andrade (2014), explica metapsicologicamente o objeto subjetivo: a impossibilidade da passagem do narcisismo primário para o secundário em função da falha materna, que faz com que ocorra uma volta em busca de onipotência para evitar o desastre.

Quanto aos demais exemplos, vou parar no da relação amorosa. O homem descrito não aceita a companheira como um ser que existe. Quando ela manifesta qualquer desejo, mostra para ele que ela existe através do desejo de tê-lo. Criando uma imagem absurda, é como se ele tivesse “agenesia de narcisismo secundário”, ou seja, a impossibilidade de alguém existir além dele.

Farei uma pequena menção ao poder do analista nas supervisões, a título de reflexão e de estímulo para as discussões.  Lavie (1996, p. 33-34) nos mostra com precisão a questão do poder de um supervisor:

depois de alguém apresentar um caso aos seus colegas ou terceiros, raramente falta alguém para pensar, e, pior ainda, para expor a todos como ele vê o caso, do qual só ouviu falar por aquele a quem nega a correta compreensão. Pode-se discordar da opção adotada por aquele que expõe, a ponto de querer explicitá-la, por que não? Mas como dar uma opinião baseando-se na suposta incompreensão de sua descrição? E a partir de qual ponto de vista? Um caso só tem existência psicanalítica a partir da compreensão que dele temos, e pelo papel que supomos ter nessa compreensão.  

Para terminar, contarei um momento vivido na academia, onde vou por prescrição médica e com personal por ela indicada. A visão das pessoas se olhando nos espelhos e fazendo força para levantar pesos, a expressão de sofrimento e o poder que demonstram. Faço a fantasia de que são momentos de busca de onipotência, “estou ‘criando’ um novo objeto forte e potente. Há dois jovens fortes e musculosos, que me tratam muito bem, aos quais certa vez me dirigi e disse-lhes: “é… vocês são fortes e perfeitos nos exercícios”. Um olhou para o outro e disse: “quando eu crescer quero ser você, que é o melhor”.  Eu não resisti e disse: “quando eu ‘voltar’, quero ser qualquer um dos dois”. Alívio senti por perceber que não preciso mais de tanto poder.

Nova Lima, 22 de outubro de 2017.

Referências

ANDRADE, V. M (2014). O narcisismo e o mal estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 2014.

CANDIDO, A.(1991). A culpa dos reis: mando e transgressão no “Ricardo II”. In: Ética. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

FREUD, S. (1930). O mal estar na civilização. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

HÉRITIER. F (1998). O eu, o outro e a intolerância. In: AHLMARK, P. et al. Academia Internacional das Culturas. A intolerância. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

LAVIE, Jean-Claude (1996). O amor só se autoriza por si mesmo. In: O amor é o crime perfeito. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

MIJOLLA, A. (2002).   Narcisismo das pequenas diferenças.  In Dicionário Internacional da Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago Editora, 2005.

RICOEUR, Paul (1998). Etapa atual do pensamento sobre a intolerância. In: AHLMARK, P. et al. Academia Internacional das Culturas.  A Intolerância. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. 

SCOTT, J.  Poder (2006). In: SCOTT, J. Sociologia:conceitos-chaves. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

WINNICOTT, D. W (1953). Objetos transicionais e Fenômenos transicionais. In: _______ O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975. 

WINNICOTT. D.W (1969). O uso de um objeto e Relacionamento através de identificações. In: ______O brincar e a realidade. Imago, Rio de Janeiro (1975).

Sobre O Por que Amamos?

Apresentei no dia 17/09 em Curitiba um texto com esse nome, tentei explicar qual seria a necessidade de se amar. Escolhi explicar via a teoria winnicottiana e postulei que a necessidade de amar seria quase “biológica” visto ser a grande busca do homem e se torna uma necessidade.

IV Encontro Sobre o Pensamento de Winnicott- Curitiba Agosto de 2019

POR QUE AMAMOS?

                                                                Sérgio Kehdy

“Disse um filósofo a um varredor de ruas: “Tenho pena de ti. Teu trabalho é duro e sujo. E o varredor de ruas disse: “Obrigado, senhor. Mas diga-me, qual é o seu trabalho? E o filósofo respondeu, dizendo: “Estudo a mente do homem, seus efeitos e seus desejos.” Então o varredor recomeçou a varrer, dizendo com um sorriso: “Tenho pena do senhor também.”  (Gibran Khalil Gibran, in Parábolas)

O título vem em forma de pergunta e por isso citei uma Parábola de Gibran Khalil Gibran. Responder essa pergunta me parece impossível. Como saber a razão do amor, quase me desesperei e fui procurar nos livros. A quantidade de livros e artigos sobre o assunto é quase infinita, uma grande parte dos livros consultados são teses de mestrado e ou doutorado e implicam em vasta erudição, inclusive para serem corrigidos. Logo percebi que as leituras, embora enriquecedoras e interessantes, estavam muito distantes de mim e de meu objetivo. O que fazer com tudo que li? Fui tomado de grande desanimo com a ideia de fazer um texto de citações, preocupar-me com bibliografia correta e decidi que correria o risco de pensar livremente e usar de forma pessoal o que estudei e o que sou. Seja o que Deus quiser.

Fui alimentado por um livro que estudei no colegial no interior de Minas, Introdução à Filosofia, escrito por um professor espanhol chamado Morente[1]. Ele começa falando da importância das vivências e explica que podemos passar anos estudando a cidade de Paris, saber o nome de todas as ruas, de todos monumentos e praças, de todas as estações e conhecer a história de Paris, mas tudo isso é completamente diferente de passar algumas horas apenas em Paris. Esse exemplo me marcou profundamente e todas as vezes que tentei fazer isso, estudar e falar sobre sem as vivências, acabei me arrependendo, pois tinha o sentimento de ser falso. Horrível.

Conclui isso e pensei em outro impasse, mas como falar das próprias vivências de amor, coisa que nem Winnicott fez. Lembrei-me de Edgar Morim[2] que escreveu um livro autobiográfico e na introdução ele diz, “se estiverem esperando que eu vá contar sobre meus casos amorosos não precisam ler o livro.”  Conclui que também não poderia usar meus romances pessoais, reais ou imaginados, pois soaria como uma confissão. Encontrei a saída, da forma que sempre faço, que é usar minha experiência de analista e usar tudo que sei para associar livremente.

O amor é incrível, assisti um filme recente no Netflix chamado Newness, que é muito interessante porque se trata do amor contemporâneo, já falando do Tinder e das conquistas pelos aplicativos. No filme as conquistas são rápidas, a intenção primeira é fazer sexo, o que é conseguido com bastante facilidade e o estranho era exatamente alguém falar de amor ou os encontros se repetirem. Adorei o filme porque é o mundo de hoje, a forma como o amor acontece na atualidade. O ator e comediante Aziz Ansari[3] escreveu um livro sobre o assunto, chamado Romance Moderno e explica que como não estava entendendo as relações atuais saiu a procura de livros sobre o assunto e nada encontrou, então pesquisou e escreveu o livro. O filme e o livro são exemplos vivos da atualidade, ou seja, a turma manda emojis e isso pode ter vários significados e suscitar várias perguntas, a gama de ofertas é enorme e tudo acontece sem muita conversa ou discussão. No filme, Gabi, marca com um cara e Martin com uma menina, ambos através do aplicativo, Gabi fala para as amigas que não se interessava por namorados e procurava apenas “caras” que a fizessem “gozar”, Martim também usa o mesmo raciocínio. Ambos vão para os seus encontros, Gabi faz sexo com um rapaz que a despreza e Martin fica sabendo que sua parceira tinha ingerido muitos comprimidos de Rivotril, cuida dela e vai embora. Os dois frustrados voltam para o aplicativo e marcam um encontro. Comentam seus encontros e falam francamente sobre o assunto. Vão para casa de Martin e começam um caso, na verdade apaixonam-se e se sentem atraídos e conseguem grande performance sexual. Gabi insistia que ele a fazia ter “orgasmos”. O filme mostra o conflito intenso que começa a aparecer, os incômodos do amor, o peso de estar ligado a alguém. Fogem disso e resolvem a ser um casal aberto, ou seja, podiam transar livremente com terceiros, mas fariam uma dupla imbatível. Entram nesse jogo e Martin racionalizava a questão dizendo para seu amigo casado e pai de uma filha que enquanto ela só gozasse com ele, não haveria motivos de preocupação. Assim o filme se desenvolve, as traições acontecem sem serem traições porque são ditas, mostram com clareza a tentativa de unir as duas coisas, amor e liberdade, amavam-se e eram completamente livres, e a verdade dita “nua e crua” limpava tudo. O filme é intenso, claro que os atores são jovens e bonitos, mas bastante naturais e verdadeiros. Vários pequenos conflitos aparecem e mesmo com eles, os dois continuavam em sua tentativa de ter um casamento livre. Até que as ofensas crescem de intensidade e começam a perceber o absurdo da vida deles. Rompem e Gabi vai viver com um homem mais velho e sua filha, diz para Martin que teve orgasmo com ele e prontamente a coisa torna-se quase violenta. Interessante é que Martin tenta não falar dele mesmo para ela, que reclama e deseja saber sua história, mas ao mesmo tempo, ela tinha muito mais dificuldade em ser monogâmica. Esse para mim é um dos pontos cruciais do amor atual e livre, a dificuldade de lidar com a intimidade. A intimidade física é total, mas funciona como defesa contra o medo do amor e contra a intimidade psíquica. No fundo ambos têm o mesmo medo. Mostram com clareza todas as questões do amor, todos os livros e tratados filosóficos aparecem no filme, o que me fez concluir que a questão do amor permanece a mesma. Falam do amor romântico e do amor apaixonado, da sexualidade desvinculada dos afetos, da fluidez do contemporâneo e da impossibilidade de não se envolverem. Aziz Ansari em seu livro, tipo pesquisa, chega a mesma conclusão, ou seja, com uma roupagem nova, com a tecnologia facilitando tudo e com a queda das barreiras, o desespero fica aparente demais e a dor dilacera e se transforma em atuações desenfreadas, porque o conteúdo amoroso continua sendo o mesmo de Shakespeare, os motivos que levam aos encontros são os mesmos e isso é a questão do trabalho, por que amamos?

O que a psicanálise pode oferecer para nós. Tudo começa em Freud, nossa casa primeira. Acusam-no de pensar o amor em termos de pulsões, o que não é verdade, fiquei pasmo de ler psicanalistas renomados separando sexualidade de amor.  Em recente tradução para o português da obra do mestre, os editores dividiram por temas, um dos volumes tem o seguinte título; “Amor, sexualidade, feminilidade”[4]. A introdução é muito boa e os autores esclarecem com poucas palavras a contribuição de Freud: “Contudo, nem o amor, nem a sexualidade, nem a feminilidade são apreendidos como entidades isoladas. Ao contrário, são temas que se cruzam nas mais diversas proporções e nas mais complexas articulações. Ou podemos esquecer de que Freud reuniu, em 1920, as pulsões sexuais e as de autoconservação sob o nome de Eros[5], o deus do Amor? Com efeito Freud trata das condições inconscientes e das correntes libidinais da vida amorosa, da complexidade da sexualidade feminina, do papel da disposição bissexual na subjetivação da sexualidade.” Como não é meu interesse fazer uma viagem pelas teorias psicanalíticas sobre o amor, acho conclusiva essa citação que mostra de forma clara de como amor e sexualidade estão juntos. Quando se fala de amor entre dois seres humanos, chego a duvidar se pode existir amor sem desejo ou fantasia sexual acoplado. O contrário é possível e milhões de vezes realizados, mas assim mesmo tem algo que pode ser chamado “like love”. Um paciente me dizia que frequentava as casas de prostituição, mas que quando pensava no assunto, percebia que sempre existia afeto, por exemplo, o que o levava a fazer determinadas escolhas e muitas vezes, naquele momento, teve a sensação de estar “amando” a companheira, claro que esse homem foi um analisando com grande capacidade associativa e emocionalmente rico, mas esse relato me trouxe certa convicção de que sempre os afetos, as simpatias que são diretamente ligadas a eles, tem alguma participação. Freud também mostra que quando se dissocia sexualidade do amor entramos no campo das patologias.

Parto sempre do princípio que o Amor é um termômetro e um grande indicador da capacidade mental do sujeito. É através das relações amorosas onde as dificuldades aparecem e impedem o usufruir do objeto escolhido e amado. Todos os sintomas psíquicos terão alguma repercussão no amor e nas relações amorosas. Isso é a maior prova de que o amor é universal e ninguém pode fugir dele, daí eu dizer que o amor é “biológico” e faz parte da natureza do homem. Talvez seja o herdeiro da função do Apego, tão bem descrito por Bowlby[6] e tão pouco estudado no nosso mundo psicanalítico.

Então, amor, pulsão e apego estão juntos e todos fazem parte do mais profundo e inevitável do ser humano.

Outro conceito freudiano definitivo para entender o motivo do amor é a questão do narcisismo. Tenho para mim que de toda a obra psicanalítica é o ponto mais determinante do sujeito. A representação que se têm de si mesmo determinará sempre como será a visão do outro e em consequência quais necessidades narcísicas se procurará no objeto de amor e pode ser um dos determinantes do porquê amamos.

Interessante é que a teoria psicanalítica do self que estudou isso profundamente e de forma tão profícua e no mesmo tempo que Winnicott, não mantiveram um canal de comunicação, sendo que usando outra linguagem operam conceitos muito semelhantes.

Winnicott em Tudo Começa em Casa afirma que segue a teoria freudiana, começo por aí, para nunca deixar dúvida sobre a importância de Freud em toda e qualquer teoria e ou fala psicanalítica. Tenho repetido que Freud não pode ser considerado um autor, precisa ser visto como o idioma psicanálise, daí passarei para minha visão Winnicottiana do porquê amamos?

Amar é “biológico” algo que assim chamo porque faz parte do desenvolvimento humano e sem depender de raça, cultura ou qualquer outra coisa. Seguindo a risca o pensamento do mestre que mais usamos, o mundo (meio ambiente) favorável vai permitir que esse potencial se torne uma capacidade e se transforme em uma necessidade atendida, que se assim não for, será uma catástrofe na vida da pessoa. Todas as patologias passam por aí. Atendo um jovem cujo diagnóstico através de testes e outras escalas foi de Asperger, um transtorno do espectro autista. Esse rapaz sabe tudo, tem dificuldade de articular as palavras, dando um tom de ligeira confusão, mas consigo compreende-lo com um pouco mais de atenção (menos flutuante), inclusive quando fala em inglês, idioma que sabe mais do que eu. Não é feio, mas tem algo de “diferente”, difícil de descrever. Fala muito e se queixa bastante da vida e de suas dificuldades, acha-se desatento e tem uma autoimagem horrível, não consegue ver nada de bom nele e a mãe, mesmo bem intencionada acaba por critica-lo muito, mas uma das grandes queixas é o fato de não conseguir que nenhuma garota se ligue a ele. Sofre muito e acaba por se masturbar compulsivamente. Deseja uma namorada e através dos aplicativos consegue marcar encontro, mas quando as meninas o conhecem desistem. Não vou discutir o caso, mas apenas esclareço que o amor ou a falta dele, que dá no mesmo, é sempre determinante. Esse paciente me lembra personagens do filme que citei acima e ao qual voltarei.

O espaço potencial ou da ilusão é a chave para compreender a razão de precisarmos amar. Serei um pouquinho chato, mas não se trata de amor em Winnicott e sim do amor e talvez o uso de sua teoria seja a melhor para nos aproximar dessa compreensão.

Esse espaço será determinante da capacidade criativa, do rumo eterno à independência e da subjetividade.  Essa última é fundamental para o sentimento de identidade. A ilusão em sua origem é quase igual a fusão, estamos falando do reino do objeto subjetivo, ou seja, o bebê cria tudo a sua volta, algo equivalente ao narcisismo primário, os objetos nos pertencem e são criados por nós. Sabe-se que nenhuma vivência desenvolvida desaparece completamente, ela é acrescida das aquisições incessantes. A vida é isso, nunca se para de acrescentar o novo à subjetividade existente. Stern[7] em seu livro deixa isso claro, nada é perdido, deixa apenas de ser dominante.

O Amor como algo intrínseco e inexorável do homem, vai passar por várias etapas de desenvolvimento e tal como o comer jamais será desnecessário.

O bebê que recebe holding suficiente sente-se seguro, seus momentos de onipotência permitidos pela mãe vão criando condições para uma representação suficiente de si mesmo, o narcisismo vai se desenvolvendo sem grandes prejuízos. O objeto é subjetivo, pertence incondicionalmente ao infante, pois é criado por ele. Freud usa a expressão Sua Majestade o Bebê, tudo gira em torno dele e as frustrações existentes de forma suportável vão levando ao crescimento e à individuação e a separação. Vejam como a paixão normal do início de um caso amoroso se parece com isso. Início os dois se misturam, se confundem e vi isso em um filme ontem “o casal unindo as bocas (sem beijar) e dizendo que queriam respirar a respiração do outro.” Achei a cena paradigmática da paixão, onde tudo funciona através do objeto subjetivo, as diferenças não podem existir e o narcisismo impera, porque o objeto importa enquanto meu e só para mim, daí as paixões serem tão perigosas, facilmente se regride a esse estado se não existir uma força contrária, que segundo Ogden[8], na dialética fantasia e realidade pese a favor da realidade. São mil exemplos na literatura.

No amor normal, a paixão vai se transformando e passa a ser o que se chama de amor, embora eu tenha grande dificuldade em separar um do outro, quando se permite momentos nos quais os amantes se fundem e conseguem se separar, aqui que acho que o coroamento do amor é a relação sexual genital, que além do prazer funcional permite a fusão e depois da satisfação vem a separação prazerosa. Maravilha isso. Aviso que não temos preconceitos contra práticas pré genitais, pois é possível que o prazer sexual, em qualquer situação traga a lembrança biológica do amor. Esse é o motivo que não dissocio amor, que estou chamando de necessidade biológica, da sexualidade. A última é uma maneira forte de se concretizar o amor. Imagino que nas formas de amor entre pessoas do mesmo sexo seja absolutamente idêntico. Já ouvi inúmeras vezes de analisandos relatos intensos de momentos de grande amor.

Então, por que amamos? Acho que se torna uma necessidade de reviver esses momentos de forma realística, algo sem o qual ficamos incompletos, coisa que assistimos todos os dias em nossas clínicas. Amar é uma forma de reviver o espaço da ilusão, o reviver os momentos de onipotência que são permitidos pela mãe suficientemente boa, viver a fusão e se separar sem medo de desintegração, muito pelo contrário, esses momentos satisfeitos colaboram em muito para a certeza de ser um ser subjetivo e integrado. É para nos reabastecermos dessas vivências que precisamos de amar.

Claro que, qualquer hipótese é apenas uma hipótese.

Não me preocupei em falar de outras formas de amor, que com certeza existem, falei apenas do amor necessário para sobreviver, para produzir e ter uma vida inteira e completa.

Volto então ao filme, onde mostra o amor contemporâneo que na verdade não tem nada de novo. A fidelidade, um dos temas centrais do filme, ou seja, quando se trata de um casamento aberto, torna-se insuportável porque deixou de ser a vivência de momentos de onipotência e do ser desejado e querido incondicionalmente.

Essas são as ameaças narcísicas, claro que um individuo com self coeso é capaz de suportar as separações sem medo, sem ameaça, mas imaginem alguém que teve de lutar precocemente por um pouco de “alguém”, com certeza vai ficar ameaçado com cada ausência e com cada separação.

Apesar do amor ser sublime, ele é uma repetição de satisfações infantis e por isso tão sujeito a brincadeiras, piadinhas e dores. 

Terminarei com uma poesia de Álvaro de Campos, um dos Fernando Pessoa, nosso eterno salvador para dar um bom impacto no final de nossos textos.

Todas As Cartas de amos são

Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor.

Como as outras,

Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,

Têm de ser

Ridículas

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor

É que são

Ridículas.

Quem me dera no tempo em escrevia

Sem dar por isso

Cartas de amor

Ridículas.

A verdade é que hoje

As minhas memórias

Dessas cartas de amor

É que são

Ridículas.

(Ficções do Interlúdio / Poesias de Álvaro de Campos) [508]

Nova Lima, 21 de julho de 2019.

Resumo: Faz uma apreciação do amor na contemporaneidade e mostra o amor como uma necessidade “biológica” e explica que podemos dizer que precisamos do amor como forma de reabastecimento dos momentos vividos no espaço da ilusão, no qual a mãe permite que o objeto subjetivo exista e o sentimento de onipotência se experimentado. Afirma o autor que isso é vivido em um ato sexual, uma forma de concretizar o amor e após o orgasmos os seres voltam a um estado anterior prazeroso e experimentam uma sensação de plenitude de ser amado incondicionalmente.


[1] Morente, M. Garcia. Lições Introdutórias de Filosofia, 1938.

[2] Morin, E.  Meus Demônios, Editora Bertrand Brasil Ltda., Rio de Janeiro, 2003

[3] Ansari, A. Romance Moderno, Paralela.

[4] Iannini, G; Tavares, P.H. Obras Incompletas de Sigmund Freud, Autentica, BH, 2018.

[5] Spalding, T.O. Dicionário de Mitologia Grego-Latina. Eros casa com PSIQUE da união nasce a Volúpia.

[6] Bowlby, J. Apego, Martins Fontes, São Paulo.

[7] Stern, D. N. O mundo Interpessoal do bebê. Artes Médicas, POA

[8] Ogden, T.  Espaço Potencial, in Táticas e Técnicas Psicanalíticas, Artes Médicas, POA, 1990

Narciso e Édipo: Solidão

Narciso e Édipo: Solidão

As duas lendas da mitologia fundantes da psicanálise são de grande beleza e da maior importância por representarem as vivências mais marcantes do desenvolvimento psicológico do homem.

Ovídio em sua obra Metamorfoses, descreve de forma magistral a evolução do homem. Descreve a lenda de Narciso e sua relação com Tirésias, a quem foi dado por Zeus (Jupiter) o dom de saber o futuro. Céfiso enlaça Líriope em seu leito e a violenta e dessa união nasce Narciso, de rara beleza e já digno de ser amado pelas “ninfas”. Tirésias vaticina que ele poderia ter uma vida longa “se não conhecesse a sim mesmo”. Narciso tinha dezesseis anos e podia ser tomado tanto como menino e também como um moço. Todos que o viam ficavam literalmente alucinados por ele. Ovídio em seu texto realça a “tão rude soberba” mostrada por Narciso, que fazia com não permitisse ser tocado por nenhum jovem e por nenhuma ninfa. É visto pela ninfa Eco, amaldiçoada por Juno, que era “detida” por sua fala quando estava prestes a surpreender Jupiter deitado com suas amantes. Condenou-a então a não responder com silêncio quando falavam com ela e sim repetir tudo que ouvia. Eco vê Narciso que andava sem rumo pelos campos e se apaixona loucamente por ele e resolve segui-lo, mas apesar do intenso desejo de chegar e suplicar por seu amor, não podia, pois nunca conseguiria falar primeiro, mas podia repetir e ressoar as últimas palavras e se dispôs a fazer isso, ou seja, esperar os sons emitidos por Narciso e lhe devolver suas próprias palavras. O texto reproduz diálogos entre Eco e Narciso. Ele a chama e ela repete: Narciso diz, “Vem para perto de mim, unamo-nos!” ela com a maior boa vontade repete: “unamo-nos”. Saí de seu esconderijo e se joga para abraçar Narciso que foge e lhe diz: “Afasta-te de mim, nada de abraços! Prefiro morrer, não me entrego a ti!”. Eco respondeu somente: “Me entrego a ti.”

Eco então esconde-se e protege com flores o rosto corado de vergonha, e, desde então, vive naquelas grutas isoladas. Ela definha, sua pele fica seca e a própria essência do corpo se evapora no ar, mas  avoz sobrevive e os ossos também, dizem que virou pedra, mas o som de sua voz é ouvida por todos, mesmo que não possam vê-la. Narciso continua a desdenhar de todos que o querem e um desses lhe roga uma praga: “que ele ame, por sua vez, e não possa possuir o objeto amado.” Ovídio conta de forma linda o resto da lenda a qual todos sabem o desfecho. Depara-se com sua imagem e fica perdidamente apaixonado por si mesmo. Interessante é que todos os gestos e tentativas de abraçar a imagem é repetida pela sombra, a qual ele não reconhecia como própria. Por mais que tentasse não conseguia abraçar a si mesmo, e assim morre e para perpetua-lo nasce uma flor.

O que importa aqui é o fato de Narciso não apresentar qualquer vislumbre   do não eu, ou seja, o não eu não existia. Reinava onipotente e sem ver o mundo e não é casual que uma de suas apaixonadas foi Eco, que apenas confirmava com suas repetições a certeza de que no mundo só ele existia. A lenda não faz menção a sua mãe, apenas realça a solidão total de Narciso e sua recusa, talvez medo de se relacionar com quem quer seja. Ele não era só, na verdade, os outros não existiam, o assustavam e o ameaçavam. O desenvolvimento de si mesmo não ocorreu, não pode ver o outro sem saber quem é e que tem existência própria. Incrível na mitologia é o inexorável, não dá para fugir de si mesmo e nunca se consegue pular as etapas.

O narcisismo precisa ser transformado e para isso é fundamental que “se veja, que seja reconhecido e, possa então, se reconhecer. O que determina isso é o olhar da mãe que reflete o rosto do filho. Para se relacionar com o outro é preciso aguentar estar só, pois caso contrário não haverá relações e sim fusões, ou seja, necessidade vital do outro para manutenção de si mesmo. Então, a capacidade de estar só, que também chamo de individuação, a consciência de que se existe “separado” e com vida própria é fundamental para ter e amar o outro. A famosa frase do paradoxo winnicottiano, “preciso do outro para estar só”, vale em sua inversão, preciso aguentar estar só para ter o outro.

Édipo, outra figura trágica e infeliz, cuja capacidade de estar só não se completou. Chama-se complexo de Édipo, exatamente porque ele não foi capaz de ultrapassar essa grande tormenta pela qual todos os seres humanos têm de passar. 

Existem várias versões de Édipo, o professor Junito Brandão, que foi um grande conhecedor dos mitos e de mitologia, as descreve em sua monumental obra. Freud se baseia na tragédia escrita por Sófocles, Édipo Rei.  De novo, Tirésias que perdeu a visão pela arrogância de ter aceito ser juiz de uma disputa entre os deuses, como nos conta Ovídio de uma maneira engraçada; Júpiter conversava com sua mulher Juno e afirmou para ela que o “prazer que ela sentia era maior do que o dos homens”. Ela nega e resolveram, para tirar as dúvidas consultarem Tirésias, que havia sido transformado em mulher pelas duas serpentes e depois recuperado a forma anterior, então, por ter vivido as duas situações, pois havia sido mulher e voltara a ser homem, ele saberia resolver a contenda. Perguntado, ele concorda com Júpiter, mas Juno não levou o caso como o esperado, ficou irritada e tirou a visão do “juiz dos deuses”. Um deus não pode desfazer o que outro fez, mas para compensar, Júpiter dá para Tirésias o dom de ver o futuro.

Édipo, filho de Laio e de Jocasta, nasce e perguntam a ele sobre o futuro de Édipo; prontamente responde que ele iria matar o pai e se casar com a mãe. Laio então ordena que se mate Édipo, que foi dado a um pastor que o poupa, aqui, as várias versões sobre Édipo divergem. Em Sófocles, Laio amarrou os pés do menino pelos tornozelos antes de entregar ao pastor que o abandonaria no Monte Citeron. Em outras versões, a criança tem os calcanhares perfurados. Estou tentando descrever a crueldade do abandono. Versões de estudiosos dos mitos dizem que mutilaram Édipo para que ninguém o recolhesse, pois era costume abandonar crianças aleijadas e mutiladas. É somente a partir de Sófocles que as cicatrizes serviram como sinal de identificação do menino como filho de Laio.  Várias versões também de como ele chegou à corte em Corinto, uma delas é de ter sido dado pelo pastor de Laio ao pastor de Corinto que o entregou a Pólibo, rei de Corinto, que o adotou, visto que não tinha descendentes. Outra é que, abandonado, foi encontrado por Peribéia, esposa de Pólibo. O fato é que foi criado pelo casal e, também recebe o vaticínio de que mataria o pai e se casaria com a mãe, então foge de Corinto e vai de encontro ao seu “destino”, o que se acredita, em busca de sua identidade, do saber quem sou e de onde vim. Vários trabalhos fazem essas divagações.

Também não se entende como Jocasta não percebe que o assassino de Laio era o seu filho, sugerindo que talvez fosse uma situação que a agradava muito. O incesto não ser por parte do filho e sim permitido pela mãe.

Jocasta, quando percebe que Édipo começa a ficar atormentado com a possibilidade de ter filhos com a mãe, diz a ele: “Não deve amedrontar-te, então, o pensamento dessa união com tua mãe; muitos mortais em sonho já subiram ao leito materno. Vive melhor quem não se prende a tais receios.”

Nada mais Solidão do que as estórias de Narciso e Édipo, dois mitos brilhantemente usados por Freud para falar do desenvolvimento do homem.

As descrições aqui relatadas mostram que ambos foram entregues a própria sorte, absolutamente abandonados e vivendo sem contar com o outro para referencia-los e nomeá-los.

O óbvio fundamental é que tanto Narciso como Édipo tiveram um fim trágico e “brincando” aqui, pode-se afirmar que Narciso não conseguiu resolver “seu narcisismo, os golpes narcísicos sofridos por todo ser humano”, assim como Édipo não ultrapassou a atração e o impulso de se chegar a mãe, ou seja, não resolveu seu “complexo de Édipo”.

O trajeto de Narciso a Édipo requer uma mãe suficientemente boa, uma mãe que determine e permita que o outro seja reconhecido e assim propicia o desenvolvimento da capacidade de estar só, que é a própria noção de que “eu existo, tenho minha subjetividade e meu sentimento de identidade seguros, e para isso conto com meus objetos de amor, tenho mãe, pai, pessoas com as quais tenho uma relação de amor, que me r e de que me ratificam e de quem eu gosto, mas posso viver separado”. Tolerar estar só é determinante do ser.

As teorias e os conceitos de Winnicott são todos inter-relacionados, claro que implica holding, rumo a independência, o sentimento de existir verdadeiramente, a capacidade de se preocupar com o outro, a generosidade que vêm disso e a firmeza do self, que se sente integrado e firme, ou seja, poder entrar nas situações sem medo de colapsos. 

A capacidade de estar só implica todos esses acontecimentos, pois trata-se de um desenvolvimento e faz parte de todo um processo e como todas as possibilidades humanas não é estático, ou seja, pode ser abalado depois de adquirido, mas jamais será com a intensidade de quem nunca as possuiu.

Aqui, estou mais preocupado com sínteses do que com análises. Tenho afirmado que a Capacidade para estar Só demonstra um dos pontos da vida mental plena e completa. É condição para ser adulto, aguentar ficar só e saber-se inteiro e sem o sentimento (incomodo) de solidão. 

Narciso morreu tentando encontrar um objeto responsivo, estava em busca da primeira fase da formação do self, se apaixona pelo espelho, que no caso não era o olhar da mãe e sim ele mesmo. Fica claro, quando o mito descreve que a imagem sombra fazia os mesmos movimentos, sugerindo que não tinha o sentimento de estranheza que mostrava em relação a todos os outros que se aproximavam dele. Fiquei imaginando o desespero e a solidão quando não se consegue respostas concretas. O desespero de quem nunca é visto ou ouvido e percebe somente o Eco de suas próprias palavras.

Para Narciso sobreviver precisaria ter tido uma mãe que espelhasse sua beleza, que propiciasse a ele a condição de ir aos poucos se integrando e, assim poder ver e acreditar que a existência do outro não o ameaça de engolfamento.  Nunca haverá uma situação de independência a ponto de não se precisar mais do outro. Winnicott frisa muito a ideia de que se caminha para independência, mas nunca se chega lá.

Se tudo corre bem, o narciso começa a ver outro, busca o outro e chega a ser Édipo e aí terá de vencer outra guerra.  

Édipo foi abandonado e isso deve ter deixado marcas indeléveis, vejam como teve de se desenvolver para chegar até ao trágico. Cumpre o desenvolvimento, luta para não morrer nas mãos de Laio e o mata, e vai triunfalmente buscar a mãe e quando tem o insight final e fura os próprios olhos para não ver, me passou pela cabeça o sentimento de solidão tão intenso que podemos chamar de desamparo:

“Aí de mim! Aí de mim. As dúvidas desfazem-se! Ah! Luz do sol. Queiram os deuses que esta seja a derradeira vez que te contemplo! Hoje tornou-se claro para todos que eu não poderia nascer de quem nasci, nem viver com quem vivo e, mais ainda, assassinei quem não devia!”

Para ambos faltaram os ingredientes para a capacidade de estar só, o poder viver consigo mesmo e suportar o outro, ou seja, construir a subjetividade que é o determinante do sentimento de identidade.

Quando se tem holding e essa capacidade de ser si mesmo, de estar só com calma e sem até perceber que está só, floresce um ser humano inteiro, adulto e que consegue abrir mão dos outros, pois não necessita da posse de ninguém para existir. No caso de Édipo, a mãe não pode deixar acontecer o concreto, como é óbvio, mas precisa de criar uma situação onde a criança suporte a frustração de não ter os pais e assim mesmo “saber” que se pode sobreviver.  Nas meninas, acho que o mecanismo que me refiro é o mesmo, não tenho pênis, mas sobrevivo sem ele, sem meu pai e sem minha mãe, porque ao mesmo tempo os tenho.

O sentimento de solidão não pode ser percebido como algo doloroso, ao contrário, deve ser motivo de júbilo e alegria.

Tenho visto quadros patológicos de monta, que custei a associar com uma capacidade precária de estar só, nos quais a busca sempre é de uma situação de fusão. Impressionante.

Para estar só é necessário o outro internalizado, mas para se ficar com o outro é fundamental ter a capacidade de estar só, saber que eu sou eu e que

sou capaz de amar e compartilhar.

Termino transcrevendo o final da tragédia:

Corifeu

Vede bem, habitantes de Tebas, meus concidadãos!

Este é Édipo, decifrador dos enigmas famosos;

ele foi um senhor poderoso e por certo o invejastes

em seus dias passados e de prosperidade invulgar.

Em que abismos de imensa desdita ele agora caiu!

Sendo assim, até o dia fatal de cerrarmos os olhos

não devemos dizer que um mortal foi feliz de verdade

antes dele cruzar as fronteiras da vida inconstante

sem jamais ter provado o sabor de qualquer sofrimento!”

Solidão no Velho

via

Solidão na Velhice [1]

 

Sérgio Kehdy[2]

 

 

Tudo aquilo que poderia ter sido e que não foi. Com esse verso de Bandeira eu começo minhas reflexões sobre a velhice, o envelhecimento e a solidão.

O verso de Bandeira traz a essência do envelhecimento, ou seja, a capacidade de lidar com a frustração. Eu defino a velhice como o momento da vida quando se tem de lidar com os desejos e fantasias que não foram e nem serão realizados.

É a percepção inexorável de que os milhares de planos e intenções não acontecerão, ficarão apenas na vontade. O envelhecimento saudável é aquele no qual apesar disso, consegue-se ter alguma satisfação e alegria.

Isso vem de uma das principais descobertas freudianas quando define o inconsciente, ou seja, o inconsciente é atemporal. O tempo cronológico não tem importância. A maior prova disso são os sonhos, todos nós sonhamos com coisas passadas como se fossem presentes e isso é incrível. Algumas descobertas recentes da neurociência mostram que as memórias não são armazenadas e sim reativadas, significando que se lembra sempre de formas diferentes e sempre influenciada pelo momento que se está vivendo. Então, um resto diurno, desencadeará uma memória da qual não temos conhecimento e essa determinará o conteúdo aparente do nosso sonho, baseado também nos nossos desejos inconscientes que estão e estarão sempre presentes.

Então, tudo aquilo que deveria ter sido e que não foi aparece como um desejo e uma possibilidade que não é mais possível. Essa é a questão principal da velhice lúcida. Sempre existe, como em todas as fases da vida alguma coisa que não foi, a falta está presente sempre e determina as insatisfações humanas.

No velho, as insatisfações estão presentes de uma forma mais acentuada, exatamente pela certeza de que continuarão insatisfações, pelo fato de não ser mais possível realiza-las. Claro, que as pessoas não são iguais, algumas lidam bem com a frustração, não se sentem menos e conseguem aproveitar o que construíram, mas de maneira geral esse é o mecanismo da frustração no velho, ou seja, não consegue mais manter a ilusão de que muitas coisas ainda serão realizadas, mas a capacidade de desejar permanece viva. Temos histórias lindas sobre isso e a depressão no idoso, a meu ver está nessa incapacidade de desejar e de manter a ilusão.

Partindo então dessa premissa, vejo a velhice como um período meio trágico, usando o conceito de trágico como o inexorável e sem possibilidade de ser alterado. Temos que enfrentar a situação, quer se queira ou não. O segredo aqui é não permitir que “tudo aquilo que não foi esconda o que se é.” Na minha opinião essa é uma das premissas da psicoterapia de idosos.

 

Fiz essa introdução para poder dizer logo a essência do meu pensamento sobre a velhice.  Vou agora começar o “passeio”, e levo muito em conta o fato de que, de todos as fases da vida, a velhice é a mais passível de sofrimento em função das diferenças sociais. Nos velhos ricos, com dinheiro e poder, o sentimento de menos valia será bem menor, apesar de não significar que não exista, mas na questão da realidade ele é bem tratado, mais respeitado e menos aviltado pelo fato de ser velho. Seus herdeiros os tratam com carinho e reverência, principalmente quando ainda existe algum poder decisório no velho. As rabugices e implicâncias são toleradas e aceitas. Os cuidados são prestados de forma efetiva e até afetivas por parte dos familiares e médicos. Já o velho pobre e o de classe média, atualmente no Brasil dependente de seguro saúde, não podem sentir o mesmo. Os pobres são vistos como velhos mesmo, a característica apontada por Simone de Beauvoir, os velhos vistos como inúteis, sem sua força de trabalho e com exíguas aposentadorias são os verdadeiros esquecidos. Esses velhos são humilhados em filas intermináveis de espera, tanto para receber sua “esmola” quanto para eventuais atendimentos.

“Na descrição da velhice, quando se abandona sua exterioridade—seu corpo—e se busca sua interioridade, o que se encontra de mais forte é o sentimento de solidão.” (Barreto, 1992). Para muitos velhos, pode não ser penoso, pode se transformar em um encontro consigo mesmos, mas “o sentimento de solidão ocorre quando se procura companhia e não se acha; quando as palavras necessitam de ouvido para se tornarem comunicação, e permanecem ruminação; quando a dor, a saudade, a mágoa tornam-se muito pesadas por falta de um ombro amigo onde derramar lágrimas; quando o alegre e o pitoresco são percebidos ou lembrados, mas não se atualizam em um rir junto; quando já não se conta inteiramente com alguém e em ninguém se consegue confiar. Na velhice, a solidão pesa. Não é apenas um sentimento, é um estado, uma maneira de ser—a solitária maneira de ‘ser velho’ em nossa sociedade.”

Temos então a solidão como uma marca humana, ter desenvolvido a capacidade para estar só permite suportar o ficar sozinho, mas afirmo que isso não resolve o sentimento de solidão do velho. Vou levar em conta nessa apresentação apenas o velho normal, dentro dos padrões de nossa cultura, ou seja, o velho não abandonado por seus familiares, que tem recursos próprios para arcar com suas despesas pessoais, que não conhece de forma intensa a solidão objetiva, mas que tem de enfrentar as perdas próprias da velhice e lidar com um futuro sempre duvidoso.

Uma das questões que determinam o sentimento de solidão é a diminuição da importância, os objetos introjetadas e asseguradores de que se tem valor, de que se é amado incondicionalmente e a convicção sobre si mesmo deixam de funcionar, os não convites passam a funcionar como muito ameaçadores e até persecutórios, falta aqui o espelhamento semelhante e que reforça o olhar da mãe no sentido de Winnicott. Colaboram com isso, as perdas reais, como a morte de amigos, a viuvez, a aposentadoria e o percepção de que não decide mais sobre si mesmo. Citar aqui Moud Manoni.

Em resumo, o velho sente-se só, porque perde a importância, deixa de ser o chefe, e isso determina uma sensação de abandono.

Uma dos espelhamentos fundamentais e dos quais todos necessitam para o todo e sempre é o convívio com nossos contemporâneos, pessoas que compartilharam suas histórias e estórias, com as quais pode-se resgatar suas memórias e que garantem o “abastecimento” da capacidade de estar só, que sempre vai ser necessário para viver e ou sobreviver. A vivência de ser diferente, sozinho, tolerado apenas e não querido ou desejado realmente pode desencadear o sentimento de solidão incomodo, não relaxante e doloroso.

Vou terminar, contando um episódio vivido por mim, que me impressionou muito, o qual estou chamando de: “o último libanês”.

Há muitos anos atrás, talvez há uns trinta anos, quando eu era um médico ainda com grande esperança sobre tudo e todos, passava as férias na casa de minha mãe no interior mineiro. Sou descendente de libaneses e na minha cidade havia uma colônia que tinha vida própria. Os velhos eram amigos, conviviam e as famílias se conheciam bastante. Minha casa era aberta, de sorte que tive o privilégio de ter com os amigos de meu pai alguma intimidade.

Uma noite, com meus dois filhos e minha esposa fomos à praça principal tomar sorvete e a mesma estava completamente vazia, meu pai já havia morrido há muitos anos, assim como todos os velhos emigrantes libaneses, e já não existia mais a colônia que compartilhava as alegrias e tristezas. Olho para a praça e me deparo com um velhinho, bonito, cabeça completamente branca e digo para minha mulher, “nossa é o Sr. José”, acho que é único libanês ainda vivo. Minha esposa o reconheceu, pois havia ido várias vezes ao seu armazém com minha mãe comprar trigo para quibe, que segundo mamãe, era o melhor. Não tive dúvidas e fui até ele, que não me reconheceu, identifiquei-me e ele imediatamente levantou-se, abraçou-me e começou a me falar da saudade que sentia de todos e principalmente de meu pai e contou-me que tinha ficado sozinho, todos os amigos tinham ido e que sua esposa também. Pergunto dos filhos que eu conhecia bastante, ele respondeu que estavam todos bem, que o filho era uma pessoa muito boa, as filhas moravam fora mais se preocupavam com ele, coisa que era verdade, mas para as coisas essenciais de sua vida, seus desejos, fantasias estava completamente só. Seus amigos emigrantes e todas as suas referencias haviam morrido. Disse-me que todos os dias passava um período de tempo na praça, mas não encontrava mais ninguém conhecido. Não estava deprimido, triste talvez, falou-me do filho com orgulho. Despedimos e confesso que chorei por todos, por meu pai, minha infância e juventude.

Essa história, retrata a solidão do velho, o inexorável das perdas essenciais da vida, pelas quais todos nós temos de passar. Os filhos não conseguem suprir as faltas que as perdas deixam.

Contei para minha mãe, um pouco mais nova do que Seu José, e ela me disse que as vezes tinha notícias dele através do filho, e de outras amigas e garantiu que ele estava bem.

Conclui que a solidão é inexorável, não temos como fugir, que Seu José aguentava bem porque suas lembranças o alimentavam e funcionavam como reforço da capacidade de estar só, porque sempre se precisa de objetos de amor empáticos. Tenho dentro de mim a esperança de que, mesmo por poucos minutos, consegui fazer Seu José ter a sensação de que foi acolhido em suas necessidades afetivas. Choramos.

 

Nova Lima, 13 de agosto de 2020.

 

 

 

[1] Encontro sobre Pensamento de Winnicott Curitiba- agosto de 2020

[2] Psiquiatra e psicanalista da SBPMG e SPRJ.

 no Velho