Avenida Tiradentes

Impressionante como o passado tem importância em nossas vidas. Tenho vivido muitas experiências que não deixam qualquer dúvida quanto a isso.

Na verdade o bendito FaceBook tem sido o grande responsável. Existe uma página chamada Reza a Lenda que em Araguari, criada por um professor  conterrâneo, Zenir Filho, que segundo suas próprias palavras criou para se divertir com um grupo de amigos, mas a adesão foi tão grande que hoje é um site quase público, onde todos que solicitam são aceitos por princípio. A maior parte das postagens são memórias, do tipo, quem se lembra do Elias Manga de Colete e as pessoas da cidade, mesmo que distantes há anos se manifestam, inclusive eu, e com grande alegria. Todos dão seus depoimentos e enumeram suas lembranças e como o título indica, as lendas podem e normalmente tem várias versões. Adoro essa página e principalmente quando se trata de lembranças intensamente vividas. Uma hoje senhora, Ana Vasconcellos, irmã daquela que foi minha professora de piano na infância, que conheci bem jovem, postou uma foto antiga da avenida onde vivia com meus pais, a Avenida Tiradentes, a foto era de antes das obras que a transformaram em uma rua comum, pois tinha um canteiro central e até bancos. A foto foi amplamente comentada por muitas pessoas e cada uma delas trouxe uma lembrança.

Alguns dias depois chegou a mim uma lembrança muito viva e antiga. Vi a avenida sendo transformada, as obras vieram a minha mente com nitidez, pois eu morava na própria e estudava no Externato Santa Terezinha, que era em frente. A cena que vou descrever e que me fez hoje ir às lagrimas foi a seguinte: em frente a minha casa, havia um sobrado cujo imóvel era do Sr. França e lá moravam meus amigos de todos os dias, Tarcísio e Aguinaldo, dois irmãos quase da mesma idade e filhos de uma guerreira, D. Rosa, viuva e com vários filhos. Eu os adorava e todos os dias os encontrava. Pois bem, tinha uma turminha na rua de baixo, perto do Quebra Pedra, que eram terríveis, bons de briga e a quem todos os meninos do meu tipo temiam. Não vou dar os nomes, porque posteriormente fiquei chegado a alguns e não pretendo magoá-los nunca. Mas seguindo com a história, sai da aula com meus cadernos e o mais temido deles aparece, o chão era barro puro pelas obras e ele derruba meu material no chão e começa a gozar e a humilhar. Vindo do céu, aparece Tarcísio, discreto e imbátivel,  diz a ele, derrubou e agora vai catar. Ele olhou para o Tarcisio e disse , algo que deve ter sido como “quem fará eu catar”, resumindo Tarcísio deve ter dito, eu vou fazer você catar e o menino, em sua doce arrogância, tenta dar um soco em Tarcisio e aí apanhou e foi muito. Meu amigo irmão acabou com ele, que catou tudo e bonitinho e saiu com a recomendação de nunca mais passar na Avenida Tiradentes, pois apanharia todas as vezes.

D. Rosa mudou-se para Goias e nunca mais vi Tarcísio, soube que morreu em condições tristes, em um hospital psiquiátrico sem que eu pudesse fazer nada, pois sou um bom psiquiatra, pois não soube e quero acreditar que se tivesse ficado sabendo eu teria ido atrás.

Grande herói e irmão, não tive tempo de reve-lo, mas vou publicar esse depoimento no facebook, mesmo instrumento que me trouxe tudo de volta e quem sabe alguém me aproximará de Agnaldo que sei ser médico em alguma cidade de Goiás.